William Milliken/RBG Kew
William Milliken/RBG Kew

Livro resgata medicina e cultura ianomâmi

Publicação quer evitar desaparecimento de remédios feitos com insetos e plantas, antes disseminados pelas mulheres mais velhas das aldeias

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2015 | 03h00

Foi acampar na floresta amazônica, pegou malária e esqueceu a cartela de cloroquina em casa? Faça como os índios ianomâmi: encontre um pé de envira-preta, raspe a casca da árvore, embrulhe-a em folhas, esquente tudo numa fogueira, depois esmague e beba seu sumo. Outra opção é arrancar a ponta de um tubérculo chamado cará-bravo e aplicá-la com força sobre o baço.

Se o problema for diarreia, beba o sumo da casca de ucuubarana. Para conjuntivite, colha alguns frutos de cauá-piri e pingue o caldo nos olhos. Em caso de picada de cobra ou escorpião, esfregue frutos de apuí sobre as feridas. E se bater uma dor de cabeça, encontre algumas formigas de pinças bem grandes, conhecidas como warëmo pë, e faça com que elas piquem sua testa.

Esses são alguns exemplos da medicina ianomâmi, reunidos pela primeira vez em um livro: o Manual dos Remédios Tradicionais Yanomami. A publicação é fruto de uma pesquisa iniciada na década de 1990 por cientistas europeus e retomada agora, pelos próprios índios, para salvar esse conhecimento da extinção.

Na cultura ianomâmi, quem normalmente detinha o conhecimento sobre o uso medicinal de plantas e insetos eram as mulheres mais velhas das aldeias. Nas últimas décadas, porém, esse conhecimento foi se perdendo à medida que as anciãs foram morrendo e as gerações mais jovens abraçaram a medicina tradicional dos brancos. “Quando as mulheres velhas dos nossos antigos eram numerosas, elas no tratavam com esses remédios”, escreve o índio Justino Yanomami, uma das principais fontes de conhecimento para o livro. “Mas aqui isso acabou.”

“O número de índios mais velhos foi reduzido, e os mais jovens têm pouco interesse pelo conhecimento tradicional”, explica o teólogo Marcos Wesley, do Instituto Sociambiental (ISA), responsável pela produção editorial do livro. “Sem um trabalho de resgate, esse conhecimento poderia se perder em breve.”

O livro descreve 115 espécies de plantas e insetos usadas como tratamento para diversos problemas de saúde, desde coceiras e ferroadas de arraia até malária, tonteira e cólicas menstruais. Cada espécie é apresentada com fotos e uma descrição da doença para qual é indicada, onde pode ser encontrada e como deve ser preparada. Algumas são bem conhecidas, como o limão (indicado para gripe) e o gengibre (para dores de dente e garganta inflamada), mas muitas não têm nem nome popular - são identificadas apenas pelo nome científico e o tradicional.

A publicação bilíngue, escrita em português e ianomâmi, será distribuída em todas as aldeias onde há índios da etnia alfabetizados. Não haverá venda em livrarias. “O livro é feito para eles, para os ianomâmi”, diz o etnobotânico William Milliken, dos Jardins Botânicos Reais de Kew, na Inglaterra. 

Cautela. Entre 1992 e 1994, ele e o antropólogo Bruce Albert, do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento, na França, fizeram estudos pioneiros sobre a medicina tradicional ianomâmi, mas decidiram não publicar a maior parte, com medo de que o conhecimento fosse usado de forma indevida por empresas.

Vinte anos depois, percebendo que a tradição se perdia, os próprios índios ressuscitaram o trabalho, sob a liderança da Hutukara Associação Yanomami, que representa a etnia. A maior parte do conteúdo do livro foi produzida por meio de entrevistas, feitas por jovens pesquisadores ianomâmis com três anciãos da aldeia Watoriki (AM) - não há mais anciãs no local. 

Foi decidido que, dentro do arcabouço legal atual, a melhor maneira de proteger o conhecimento seria publicá-lo, carimbando-o publicamente como propriedade do povo ianomâmi.

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