Loteamento irregular ameaça criadouro de jacarés-do-papo-amarelo

Uma nova ameaça afeta a já diminuta população de jacarés-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), espécie natural da Mata Atlântica, que figura na lista da fauna brasileira com risco de extinção. Além da perda de habitat, devido a desmatamentos; da poluição e assoreamento dos cursos d?água e da contaminação de locais de nidificação com agrotóxicos, a espécie agora também sofre pressão de um loteamento irregular, cujas obras iniciaram há 2 anos, no município de Artur Nogueira, interior de São Paulo.O loteamento é vizinho do Criadouro Conservacionista Arurá, onde a reprodução do jacaré-do-papo-amarelo vem sendo bem sucedida e garantindo a continuidade de pesquisas biológicas e sanitárias, realizadas em convênio com a Zootecnia e a Patologia da Universidade de São Paulo (USP).Instalado em meio a um pequeno remanescente de mata nativa, desde 1997, o criadouro está autorizado pelo Ibama e é considerado modelo, tendo obtido 160 filhotes, no ano passado, e 213, no início deste ano, quando o índice de eclosão de ovos chegou a 97%. Os jacarés são criados em recintos fechados, cercados de muros e fios eletrificados, com captação de água de chuva, controle da temperatura do ar e da água, estufa de quarentena e incubadora. Até hoje, apesar de ter recebido animais apreendidos pelo Ibama, oriundos de diversas localidades, ?nunca houve nenhum caso de doença?, afirma Glenn Collard, responsável pelo criadouro, onde já vem sendo feita até a incubação com indução do sexo dos filhotes.Como a maioria dos répteis, o sexo dos filhotes de jacaré é determinado pela temperatura durante alguns dias da incubação dos ovos. O domínio desta técnica é sinal de rigor científico na criação do animal.Depois que o loteamento se instalou, na propriedade ao lado, entretanto, pessoas ligadas ao criadouro começaram a sofrer ameaças, cercas foram rompidas e boatos sobre a possibilidade de fuga dos jacarés foram espalhados nas cidades vizinhas.As obras do loteamento, sem registro no cartório de imóveis, foram embargadas por uma liminar, no último dia 12 de julho, mas prosseguem. Dois autos por descumprimento de ordem judicial foram lavrados por oficiais de Justiça e há duas ações civis públicas contra o empreendimento, além de um inquérito no Ministério Público (MP), na comarca de Mogi-Mirim. ?Tudo o que podíamos fazer na Justiça, já fizemos, mas a Imobiliária RC prossegue com a construção de casas nos lotes, à revelia das decisões judiciais, com o objetivo de criar um fato consumado e tirar daqui o criadouro?, diz Silvia Sartorelli Van Rooijen, advogada do criadouro. Hoje, o gerente do Ibama-SP, Wilson Lima, fez uma visita de solidariedade ao criadouro, reiterando a seriedade da iniciativa e sua importância para assegurar a sobrevivência do jacaré-de-papo-amarelo, cuja ?população, extremamente reduzida e fragmentada, depende da criação em cativeiro para manejo e conservação?.

Agencia Estado,

01 de outubro de 2002 | 20h57

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