Loucuras na Casa Branca

É arriscado colocar a sanidade mental do presidente dos EUA em xeque

Daniel Martins de Barros *, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 03h00

O presidente Donald Trump foi avaliado na semana passada, como em um exame médico daqueles periódicos feitos pelas empresas. O objetivo era verificar sua aptidão para continuar no emprego, cujas atribuições incluem comandar o Exército mais poderoso do mundo, conduzir a maior economia do planeta, determinar políticas diplomáticas, saber a hora de acionar ou não o botão das bombas nucleares. Não é pouca coisa, convenhamos. Por conta disso, um grupo de psiquiatras, reunindo acadêmicos de Yale a Harvard, está convencido de que tal avaliação deveria incluir o exame da sanidade mental. Bem, não só por isso.

A principal motivação, a bem da verdade, é seu comportamento errático, agressivo e algo persecutório. Porque se fosse apenas pelo peso de suas funções talvez nem precisássemos de psiquiatras. Em um de seus stand ups, o comediante Jerry Seinfeld comenta achar irônico quando desconfiam da sanidade de um presidente americano. Para ele, se o sujeito já não tivesse um problema, jamais iria querer assumir tamanha responsabilidade. Ninguém totalmente normal acorda um dia e pensa: “Hum, comandar o maior Exército do mundo, definir o destino de milhões de pessoas, iniciar uma guerra... é, acho que eu sou talhado para esse emprego”, diz o comediante.

Como toda boa piada, além de fazer rir, ela serve como base para uma boa reflexão sobre o caso de Trump e a campanha que esses psiquiatras estão fazendo ao questionar sua sanidade, insistindo em uma avaliação psiquiátrica, ainda que involuntária.

A Medicina não define o que é ou não doença meramente a partir da anormalidade. Esse é um dos critérios, mas, embora necessário, não é suficiente. Necessário porque tudo o que é normal, ou seja, que está na norma, que ocorre na maioria, não costuma ser prejudicial. Se fosse, não seria comum. Logo, o patológico tende a ser o que foge da norma. Mas não é suficiente: além de se desviar da média, doença é aquilo que nos prejudica. Mesmo que não seja normal, se não for algo ruim, não é doença. Pense em alguém que tem ouvido absoluto, por exemplo. Uma força muscular excepcional. Ou uma memória prodigiosa. São características incomuns, anormais portanto. Mas como dizer que são patológicas?

O mesmo ocorre com relação às doenças mentais. Existem muitas pessoas que fogem à norma: algumas são mais tímidas do que a média, outras são instáveis. Há as muito aceleradas ou mesmo inteligentes demais. Mas, enquanto essas características não causam problemas, não se pode dizer que sejam patológicas. E na seara da psiquiatria é bom lembrar que “causar problemas” anda de mãos dadas com fugir ao controle. Sim, porque normalmente temos algum grau de controle sobre nossas ações e reações e conseguimos reagir quando notamos que algo nos prejudica. Mesmo que demore – às vezes mais, às vezes menos –, usualmente conseguimos nos acalmar se ficamos muito ansiosos, nos animar se estamos tristes além da conta e assim por diante. Na esfera psíquica, portanto, os prejuízos surgem quando o controle desaparece.

O trabalho da psiquiatria não é colocar as pessoas em um molde para que se comportem todas dentro da norma, não é reduzir a liberdade de ninguém. Ao contrário, o psiquiatra quer mais é que cada um aja como bem entender, desde que tenha discernimento e autocontrole para tanto. Quem rouba a liberdade de ação é a doença. Ao tratamento, cabe restaurá-la.

É arriscado colocar a sanidade mental do presidente dos Estados Unidos em xeque por esse motivo. Ele pode ser instável, por vezes se sentir perseguido (e qual presidente não é?), hostil e agressivo (idem). Talvez tenha dificuldade em antever as consequências de longo prazo de seus atos, agindo impulsivamente. Sim, ele é uma figura excêntrica. Não é normal. Mas, como diz Seinfeld, possivelmente apenas quem não é normal se lança nessa aventura. Ele pode até ser realmente perigoso. Mas daí a dizer que esse perigo advém de um transtorno mental que o prive da racionalidade ou autocontrole para agir livremente vai um passo gigantesco.

Quem já leu O Alienista, de Machado de Assis, sabe que mais arriscado do que deixá-lo no comando é o temerário flerte dos psiquiatras com esse exercício de poder.

* É PSIQUIATRA

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