Lula fez pressão por supertelescópio no Chile, diz 'El Mercurio'

Segundo jornal, Lula interveio na negociação com organização europeia que buscava lugar para instalar observatório.

BBC Brasil, BBC

04 Maio 2010 | 17h45

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria investido seu cacife político de "forma definitiva" para influenciar as negociações que acabaram decidindo pela instalação no Chile de um supertelescópio - o maior do mundo, cujo espelho principal terá 42 metros de diâmetro -, de acordo com o jornal chileno El Mercurio.

O Telescópio Extremamente Grande (E-ELT, na sigla em inglês) é um projeto da Organização Europeia para a Investigação Astronômica no Hemisfério Sul (ESO, na sigla em inglês) - que reúne 14 países - e era disputado com a Espanha, que queria levá-lo para a Ilha de Palma, uma das Ilhas Canárias.

Lula teria desempenhado um "papel-chave", segundo a reportagem publicada no último fim de semana. O jornal afirma que a dobradinha entre os vizinhos sul-americanos começou em meados de fevereiro, quando a ESO teria convidado o ministro da Ciência e Tecnologia brasileiro a conhecer, durante uma semana, os observatórios que a organização europeia já mantém no Chile.

Ao ficar sabendo da visita, a Chancelaria chilena teria, ainda segundo o Mercurio, se integrado à comitiva para conhecer o objetivo da viagem do brasileiro.

"Foi como ficaram sabendo que a ESO estava interessada em oferecer ao Brasil ser sócio da organização", afirma a reportagem assinada por Sergio Acevedo Valencia.

Mais que a qualidade do céu, que favorece a astronomia, pesaria a favor da Espanha o fato de o país estar disposto a investir 300 milhões de euros (cerca de R$ 680 milhões) no projeto.

Aliança

Por isso, em março, o presidente chileno, Sebastián Piñera, teria iniciado conversas com Lula sobre formas de compensar os 300 milhões de euros que faltavam ao projeto.

O Mercurio afirma que a importância do assunto era tamanha que Piñera planejava discuti-lo com Lula no dia de sua posse, mas a ausência do presidente brasileiro impediu que a ideia fosse adiante.

O periódico chileno afirma que Piñera teria então decidido ir, ele próprio, a Brasília para tocar o projeto. Em 9 de abril, ele se reuniu com Lula por mais de uma hora. Um dos assuntos tratados teria sido o telescópio.

"Lula se comprometeu informalmente a enviar um comunicado relevante à junta diretiva da ESO na Alemanha. E o fez: uma semana depois da visita de Piñera e uma antes da eleição do monte Armazones (no Chile) como local do telescópio."

Na nota, segundo o jornal chileno, Lula manifestava o interesse brasileiro em integrar a ESO sob uma condição: que o E-ELT fosse instalado em um país sul-americano, sem citar o Chile, embora não houvesse outro país do continente na disputa.

"Na Chancelaria chilena, considera-se que a determinação do Brasil foi definitiva. O governo acreditava que a decisão seria em junho, mas ao que parece, as palavras do Brasil tiveram o seu peso", conclui o Mercurio.

O Chile temia perder a disputa pela sede do supertelescópio para a Espanha depois do violento terremoto que sacudiu o país em 27 de fevereiro. A ESO temia investir milhões em instalações que pudessem vir a ser destruídas por futuros tremores, segundo o jornal chileno.

No entanto, o governo chileno teria pedido à ESO que divulgasse a informação de que o observatório de Paranal, próximo ao local escolhido para o novo telescópio, não sofreu qualquer dano por causa do sismo de fevereiro, nem tampouco do registrado em 4 de março.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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