Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Maçã imaculada

Cientistas barram reação que escurece fruta quando mordida ou cortada

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 02h00

Você morde uma maçã e larga ela em um prato. Em poucas horas, a polpa começa a escurecer e parece que ela esta apodrecendo. Você olha aquela coisa escura e vai buscar outra fruta. Esse é um problema que pessoas que fazem salada de frutas, servem pedaços de maçã descascada ou preparam sucos conhecem bem. O que eu não sabia é que esse composto marrom não tem nada a ver com apodrecimento, não altera o gosto ou as características nutricionais da fruta. É somente um problema estético. Mesmo assim nos afasta. Foi por isso que cientistas desenvolveram a maçã transgênica que não escurece. 

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O fenômeno que leva ao escurecimento é bem conhecido. Dentro das células da maçã existem dois compostos, segregados em compartimentos diferentes. Quando mordemos, cortamos ou injuriamos a maçã, as células se rompem e esses dois compostos se misturam, reagem e produzem um composto escuro. Um desses compostos é uma enzima chamada polyphenol oxidase (PPO). Essa enzima é capaz de oxidar os compostos polyphenólicos (PP). Existe uma coleção de diferentes PPs nas células e eles têm várias funções, entre elas colaborar para o cheiro e o gosto das frutas. Enquanto as células estão intactas, PPO e PP não se encontram, mas quando mordemos ou cortamos a maçã as células se rompem, a enzima PPO ataca o PP e a maçã fica escura.

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A solução bolada pelos cientistas foi reduzir a quantidade de PPO nas células. Assim, quando as duas substâncias se encontram, a reação ocorre lentamente e a mudança de cor fica imperceptível. Os cientistas usaram uma técnica chamada de RNA inibidor. Eles isolaram células de uma macieira e inseriram na célula um gene capaz de produzir um RNA que se liga ao RNA do gene da PPO. Quando essa ligação ocorre, esse par de RNAs é destruído na célula e a enzima PPO não é produzida. Construída a célula modificada geneticamente, uma nova árvore é regenerada a partir dessa célula e os descendentes dessa árvore produzem maçãs com 90% menos PPO. Tudo isso foi feito - e as maçã testadas. Deu certo: as maçãs deixaram de ficar escuras quando mordidas ou cortadas. Essas novas variedades foram aprovadas pelos órgãos de segurança alimentar nos Estados Unidos e no Canadá, novos pomares foram plantados e as primeiras caixas dessa maçã, cujo nome comercial é Arctic Apple, chegaram às lojas.

Uma das principais críticas aos primeiros vegetais geneticamente modificados é que eles não beneficiavam o consumidor, só o fazendeiro. A soja resistente a herbicidas permite ao fazendeiro matar as ervas daninhas sem matar a planta da soja; o milho Bt é uma planta tóxica para os insetos e não para humanos, o que permite que o agricultor use menos inseticida na plantação. Esses produtos, argumentam muitos, não beneficiam o consumidor final, mas somente o agricultor.

A maçã que não escurece não beneficia o agricultor, ela é produzida da mesma maneira que a convencional. O benefício é todo do consumidor e não envolve nenhuma modificação na composição da fruta ou de suas características nutritivas. O benefício é somente estético. Uma outra vantagem dessa maçã é que ela só fica escura se for realmente atacada por um fundo ou bactéria. Ao contrário da maçã convencional, que ao ficar marrom indica contaminação ou a simples reação PP e PPO, na maçã modificada, se você observa algo marrom, pode ter certeza, ela está apodrecendo.

Vai ser interessante observar a aceitação desse produto. Apesar de já tomarmos vacinas geneticamente modificadas e praticamente todos os produtos derivados de milho, soja e algodão serem produzidos com sementes geneticamente modificadas, muitas pessoas ainda resistem a essa nova tecnologia. Será que para essas pessoas consumir uma maçã imaculada será pecado?

MAIS INFORMAÇÕES: APPLE TESTS US CONSUMERS’ APETITE. NATURE, VOL. 551, PÁG. 149 (2017)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

 

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