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Fernando Reinach
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Macaco mais inteligente

Cientistas estão modificando o cérebro desses animais, incluindo um gene humano

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

Lembra do filme O Planeta dos Macacos? Por lá, seres humanos conviviam com macacos inteligentes. Agora um grupo de cientistas chineses e americanos está tentando produzir macacos mais inteligentes, modificando seu genoma. E parece que está funcionando.

Os macacos são os animais que mais se assemelham aos humanos. A principal diferença está no tamanho do cérebro e na capacidade cognitiva. Quanto mais leio sobre o comportamento dos macacos e o funcionamento de seus cérebros, mais convencido fico de que as semelhanças são maiores do que as diferenças. Apesar disso, eles não falam, não escrevem e mesmo após serem treinados por toda a vida não chegam aos pés de uma criança de 4 anos. O que estaria faltando para que o cérebro de um macaco se torne tão poderoso quanto o de um ser humano?

Nas últimas décadas, o genoma humano e de algumas espécies de macacos foram sequenciados. Isso confirmou que para cada gene humano há um equivalente nos macacos. Além disso, os genes que estão envolvidos no desenvolvimento de ambos os cérebros são praticamente os mesmos. Porém, no meio dessa enorme semelhança, cientistas descobriram quase uma dúzia de genes que são diferentes e funcionam de modo distinto em macacos e seres humanos. Essa pequena lista de genes tem sido estudada exaustivamente, com o objetivo de explicar como eles poderiam ser responsáveis pelo fato de termos um cérebro tão mais eficiente. Uma das explicações é que os cérebros humanos crescem mais lentamente, mas por um tempo maior. Esse desenvolvimento mais lento, que faz as crianças chegarem à maturidade mais tarde, se chama neotenia e um dos genes que pode estar envolvido se chama MCPH1.

Os cientistas modificaram geneticamente macacos Rhesus introduzindo em seu genoma diversas cópias do gene MCPH1 humano. O gene foi introduzido no óvulo recém-fecundado e os embriões, colocados no útero de fêmeas de macacos usando exatamente o mesmo procedimento que utilizamos para produzir os bebês de proveta. Os primeiros dois macacos modificados, com seis e quatro cópias do gene humano, nasceram em 2011. Nos anos seguintes, os experimentos falharam por causa do aborto de dois fetos. Em 2015, com sucesso, dois machos e duas fêmeas sobreviveram. Outros três fetos foram sacrificados no terceiro mês de gravidez para que seu cérebro fosse examinado. No total foram obtidos nove animais, sendo que um deles já é filho de um casal de macacos geneticamente modificados.

Comparando o desenvolvimento desses macacos com os não modificados, os cientistas descobriram que um fenômeno semelhante à neotenia ocorria nos macacos com genes humanos. O cérebro se desenvolvia lentamente e por mais tempo, mas atingia o mesmo tamanho do cérebro dos animais não modificados. Além disso, o processo de mielinização e interligação entre neurônios também ocorria de maneira mais lenta. Fora isso, todos os macacos eram normais, não apresentando nenhuma outra diferença física ou de comportamento. 

Os cientistas submeteram os dois grupos de macacos a experimentos capazes de detectar diferenças de funcionamento no cérebro. E observaram que os macacos com genes humanos possuíam uma memória um pouco melhor e um tempo de reação a estímulos menor – ambos não muito grandes, mas parecem ser significativos.

Muitos cientistas estão discutindo a validade dos resultados, pois essas diferenças podem ter outras causas, como, por exemplo, o fato desses animais terem nascido por meio de uma operação de cesárea um pouco antes da data prevista. De qualquer modo, esses são experimentos preliminares, que indicam que talvez seja possível melhorar os cérebros de macacos utilizando genes humanos. Ainda é cedo para ter certeza.

Outro questionamento entre cientistas ocidentais é de natureza ética. É admissível tentar modificar o cérebro de macacos para torná-los mais inteligentes? Que uso será dado para esses macacos? Serão os escravos do século 21? Outros argumentam que já escravizamos dezenas de espécies para nos servir e só com experimentos como esse entenderemos o que torna nosso cérebro tão poderoso.

MAIS INFORMAÇÕES: TRANSGENIC RHESUS MONKEYS CARRYING THE HUMAN MCPH1 GENE COPIES SHOW HUMAN-LIKE NEOTENY OF BRAIN DEVELOPMENT. MOL. BIOL. AND GENETICS (2019)

* É BIÓLOGO

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