Jorge González
Jorge González

Macacos da América do Sul tiveram origem na África, dizem cientistas

Uma das hipóteses é que, ao longo do tempo em que os dois continentes se separaram, os animais teriam saltado de ilha em ilha

FÁBIO DE CASTRO , O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2015 | 18h36

Depois de analisar três fósseis de dentes de macacos extintos, encontrados na Amazônia peruana, cientistas encontraram fortes indícios de que os macacos sul-americanos vieram da África. O estudo, publicado na edição desta quarta-feira, 4, da revista Nature, indica também que os macacos chegaram à América do Sul pelo menos 10 milhões de anos antes do que se imaginava.

Até agora, os registros fósseis mais antigos de macacos na América do Sul e na América Central tinham cerca de 26 milhões anos. Os novos fósseis demonstram que os macacos chegaram pela primeira vez no continente sul-americano há pelo menos 36 milhões de anos. De acordo com os autores, as características dos dentes fósseis mostram que o macaco - batizado pelos pesquisadores de Perupithecus ucayaliensis - tinha muito pouca semelhança com qualquer primata extinto ou vivo na América do Sul, mas era surpreendentemente parecido com macacos africanos que viveram na África.

A história evolutiva dos macacos no continente é considerada um mistério para a ciência. Como resultado dos movimentos de placas tectônicas, a América do Sul ficou isolada da África há cerca de 65 milhões de anos. Ainda assim, muitos cientistas suspeitavam que os macacos da América do Sul teriam vindo da África, depois de uma longa jornada pelo Oceano Atlântico. A falta de registros fósseis, no entanto, tornava a hipótese difícil de sustentar. O novo estudo fornece a primeira evidência de que os macacos sul-americanos de fato têm ancestrais africanos.

Um dos autores do estudo, Ken Campbell, curador do Museu de História Natural de Los Angeles (Estados Unidos), descobriu o primeiro dos dentes fósseis em 2010, em um banco de rio em Santa Rosa, no leste do Peru. As características eram tão diferentes das encontradas em animais sul-americanos que o cientista levou dois anos para perceber que o dente pertencia a um macaco primitivo. Nos anos seguintes, o cientista, com sua equipe, trabalhou para identificar novos pequenos fósseis associados com o primeiro encontrado, acumulando evidências crescentes. Campbell realizou expedições a regiões remotas da Bacia Amazônica em busca de pistas sobre a origem dos macacos ancestrais. Ao todo, foram documentadas 400 características diferentes de dentes, crânios e esqueletos de 16 macacos ainda existentes e 20 macacos extintos da África e da América do Sul. 

Os dados foram comparados a um conjunto de estudos moleculares realizados com espécies ainda existentes. "Os fósseis são escassos e limitados a poucos bancos expostos ao longo dos rios durante a estação seca. Na maior parte do ano, os altos níveis da água tornam impossível a exploração paleontológica", disse Campbell.

Nos últimos anos, o grupo de Campbell concentrou seus esforços no leste peruano, em parceria com uma equipe de paleontólogos argentinos do Museu de Ciências Naturais de La Plata, especialistas em fósseis da América do Sul. O objetivo era decifrar a origem evolucionária dos macacos. De acordo com Campbell, embora demonstre que os macacos da América do Sul vieram da África, o estudo não explica como eles atravessaram o oceano. Uma das hipóteses é que, ao longo das dezenas de milhões de anos em que os dois continentes se separaram, eles teriam saltado de ilha em ilha, de acordo com as flutuações dos níveis dos oceanos. Outra possibilidade seria a chegada involuntária de alguns macacos que flutuaram à deriva pelo oceano em jangadas naturais feitas de folhas entrelaçadas.

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