Roy Funch
Roy Funch
Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Maior cidade do mundo

Essa coleção de montanhas se espalha pela nossa Caatinga e é interligada por túneis

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2018 | 03h00

A maior estrutura arquitetônica construída por um ser vivo foi descoberta no Brasil. Tem mais de 4 mil anos e deixa no chinelo as pirâmides do Egito.

É difícil usar a palavra descobrir: essa enorme estrutura já foi observada por milhares de pessoas que viajam pelo interior da Bahia. Os índios que habitavam a região muito antes da chegada de Cabral provavelmente passeavam por lá.

Mas foi necessário um cientista da Universidade de Campina Grande estar dirigindo com um colaborador pelo interior baiano para o inglês perguntar o que eram aqueles cones de terra na beira da estrada. Eram cupinzeiros habitados pela espécie Syntermes dirus. Pararam para ver de perto e assim começou a colaboração internacional que agora acabou nas páginas do New York Times e vai colocar o Brasil no livro de recordes.

Com a ajuda de fotos de satélites, os cientistas descobriram que esses cupinzeiros se espalham por grande parte da Caatinga do interior da Bahia, chegando ao interior de Pernambuco. Para espanto do inglês, a área coberta por esse cupinzama (sim, a palavra existe) é maior que a Inglaterra: são 230 mil km². Nas áreas onde a Caatinga é rala, eles são vistos do ar. Onde a Caatinga é mais densa, se espalham sob a vegetação.

Cada um desses cupinzeiros tem 2,5 metros de altura, formato cônico, e um diâmetro, na base, de 9 metros. São cerca de 200 milhões de montinhos, um do lado do outro, sem interrupção, espalhados pelo interior do País.

Até aí nada de mais, poderíamos imaginar que a Caatinga está infestada por cupins. Mas os cientistas decidiram escavar alguns dos montes de terra. Descobriram que não há um emaranhado de túneis, como os cupinzeiros de outras espécies. Dentro deles, há um único túnel vertical, que vai do solo ao topo do monte de terra. Os cupins não habitam os cones de terra, mas vivem em túneis que se espalham pelo subsolo, ligando um monte de terra ao outro. 

Os montes de terra são o solo retirado pelos cupins quando escavam os túneis. Após o termino da escavação, o túnel vertical é fechado e abandonado. Os cupins, quando precisam sair do túnel para coletar folhas que brotam logo após as chuvas, emergem de buracos entres os montes de terra. Pegam o alimento e voltam aos túneis. Ou seja, o que há é uma enorme rede de túneis subterrâneos ligando 200 milhões de montes de terra ao longo de 230 mil km². Se isso se confirmar, um cupim pode entrar num túnel no sul da Bahia e sair no interior pernambucano.

Tudo indica que se trata de um único cupinzeiro muito antigo. Analisando a terra de 11 desses montes, coletada em diversos locais, foi possível determinar que os mais recentes têm 690 anos de idade e os mais antigos foram construídos 3.820 anos atrás. O volume de terra removida pelos cupins para fazer os túneis, e acumulado nos montes, é equivalente a 4 mil pirâmides de Giza, maiores do Egito, e perfaz o total de 10 km³ escavados pacientemente durante 3,8 mil anos. Nada mal.

Para demonstrar que os habitantes da rede de túneis eram uma só colônia, os cientistas colocaram cupins de diferentes regiões para se enfrentar. Normalmente os cupins de uma colônia reconhecem e atacam seus vizinhos, mas nesse caso se misturam e não mostram agressividade. Ou seja, os cupins de um desses montes vivem em paz com os vizinhos, ou melhor, seus parentes. Um baixo nível da agressividade foi observado entre animais coletados nos extremos da colônia, distantes centenas de quilômetros.

Tudo isso sugere que ao longo de 4 mil anos uma família de cupins foi cavando túneis e depositando a terra em pequenas montanhas lado a lado. Hoje essa coleção de montanhas se espalha por grande parte de nossa Caatinga e é interligada por túneis. E como essa obra arquitetônica foi feita por uma única espécie e abriga o que parece ser uma única população de cupins, nada mais adequado do que chamar esses 200 milhões de montes e seus túneis de uma grande cidade. Essa cidade é a maior obra arquitetônica construída por um ser vivo. 

MAIS INFORMAÇÕES: A VAST 4.000 YEAR-OLD SPATIAL PATTERN OF TERMITE MOUNDS. CURR. BIO. VOL. 28. PAG. R1283. 2018

*É BIÓLOGO

Mais conteúdo sobre:
caatinga

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.