Maioria dos portadores do HIV tem relação estável e está empregada

Estudo feito com pacientes da Casa da Aids, do Hospital das Clínicas de São Paulo, mostra que eles estão inseridos na sociedade do ponto de vista afetivo e econômico, afirma a diretora da entidade, Eliana Gutierrez; para ONGs, há preconceito velado

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2010 | 00h00

Militante. 'Ajudar o próxima me deu perspectiva de vida e de trabalha', afirma Américo Nunes, fundador do Instituto Vida Nova        

 

 

 

Quase 60% das pessoas que vivem com HIV possuem relacionamento afetivo estável ? a maioria delas com parceiros soronegativos. Cerca de 75% estão empregados e 68% residem com familiares ou amigos, ou seja, contam com apoio de pessoas próximas. Os dados são de um levantamento feito com 292 pacientes em tratamento na Casa da Aids, do Hospital da Clínicas de São Paulo.

"Os resultados mostram que esses pacientes estão inseridos na sociedade do ponto de vista afetivo e econômico, seja porque dissimulam sua condição ou porque estão sendo aceitos", afirma Eliana Gutierrez, diretora da Casa da Aids.

Para ela, isso pode ser explicado pelo fato de os soropositivos, hoje, estarem fisicamente mais aptos para o trabalho e demais atividades do dia a dia. "Com os avanços na terapia antirretroviral, a aids se tornou uma doença crônica. Muitos portadores estão envelhecendo e se tornando pacientes complexos", avalia.

Mas, continua ela, apesar das complicações causadas pelo vírus, pelo uso prolongado de medicamentos e pela idade avançada, a situação é melhor hoje do que há 20 anos. "Os infectados pelo vírus já se permitem pensar no futuro."

A maioria dos 3,3 mil pacientes acompanhados pelo serviço é formada por homens (70%) que têm, em média, 44 anos e há mais de 10 convivem com a doença. Mais da metade tem 11 anos ou mais de estudo.

Especialistas ouvidos pelo Estado, no entanto, afirmam que a realidade dos soropositivos no País, de forma geral, não é tão animadora. "A epidemia está crescendo principalmente entre aqueles com baixa escolaridade e menor acesso à informação", afirma o infectologista Ronaldo Hallal, assessor técnico do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. "Ainda se percebe uma grande fragilidade no que se refere ao apoio social a esses pacientes."

Preconceito velado. O diretor do Fórum de ONG Aids do Estado de São Paulo, Hugo Hagstrom, diz que, embora a maioria dos infectados tenha vida afetiva estável e more com parentes, a qualidade dessas relações é muito ruim. "Eles são julgados e julgam a si mesmos. O peso da culpa interfere em seus relacionamentos", conta Hagstrom, portador do HIV há 25 anos.

Esse é o caso do contrarregra Laerte Vicente, de 54 anos ? 10 deles convivendo como HIV. "Quando revelei para a família que era soropositivo, apenas meu pai aceitou bem. Depois que ele morreu, os demais assumiram o preconceito de vez", conta. A maioria de seus empregadores também lhe virou as costas, revela.

Embora velado, afirma Hagstrom, o preconceito ainda é muito presente, principalmente por se tratar de uma doença sexualmente transmissível. "Tivemos grandes avanços no tratamento e na legislação que protege o soropositivo. Mas duas coisas não mudaram: a ideia de que aids é uma sentença de morte e de que é uma doença de homossexuais e de pessoas promíscuas, que mereceram ser infectadas", conta.

Para Américo Nunes, fundador do Instituto Vida Nova e portador do vírus da aids há 25 anos, cabe aos portadores não se colocar no papel de vítima e buscar sua cidadania. "Quando recebi o diagnóstico, decidi encarar de frente. Busquei me informar sobre a doença e passei a atuar como militante. Isso me proporcionou perspectiva de vida e trabalho", conta.

De acordo com os dados do Ministério da Saúde, 35 mil novos casos são diagnosticados anualmente e 190 mil pacientes estão em tratamento com antirretrovirais. Em 2010, R$ 884 milhões serão gastos com esses medicamentos.

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