Mais antigo parque do Vale do Ribeira completa 45 anos

Uma série de eventos acontecem de hoje até o próximo domingo, em Iporanga, São Paulo, para comemorar os 45 anos do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), primeira área de proteção ambiental do Vale do Ribeira, criada em 19 de maio de 1958. As atividades, organizadas pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, através do Instituto Florestal, com apoio da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA), começam com um workshop sobre as pesquisas desenvolvidas na unidade de conservação, que reúne até amanhã especialistas no Núcleo Ouro Grosso. O objetivo é levantar lacunas de conhecimento, para direcionar novos estudos, e orientar a elaboração do plano de manejo do parque, que ainda não existe.A programação aberta ao público tem início no sábado, no Núcleo Santana, com a inauguração da Trilha do Betari, que acaba de ser restaurada, além de shows de danças típicas, modas de viola, teatro e apresentação de orquestras sinfônicas dentro da Caverna Morro Preto. No domingo, em Iporanga, acontecem os Jogos da Natureza, competição em equipe voltada para a comunidade, que inclui atividades como tirolesa, escada de cordas, rappel, bóia-cross e canoagem. Durante todo o fim de semana, haverá ainda exposição e venda de artesanato nos Núcleos Ouro Grosso e Santana.Espeleologia e Mata AtlânticaConhecido pela beleza e abundância de suas cavernas - cerca de 300 cadastradas -, o Petar é um dos maiores centros de espeleologia do País. Atualmente, é destino também de amantes da natureza e de esportes radicais, por conta de seus inúmeros cursos d?água, cachoeiras e trilhas, recebendo cerca de 50 mil visitantes por ano. Localizado entre os municípios de Apiaí e Iporanga, tem uma área de 35.712 hectares, na região onde está o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica existente.Os primeiros levantamentos na região, entre 1890 e 1896, foram feitos pelo naturalista alemão Ricardo Krone, que foi estudar as cavernas de Iporanga atrás de fósseis e cadastrou, já naquela época, 41 cavernas. entre elas, estava a gruta de Santana, na qual não chegou a entrar, porque estava cheia d?água, mas pode constatou que deveria ser a maior da região.Conflitos na implantaçãoAlém de sua importância para a conservação da biodiversidade e, mais recentemente, para a economia local, o Petar representa também um retrato da história das unidades de conservação no Brasil, marcada por conflitos, falta de recursos e efetivadas, na maior parte das vezes, por esforços individuais ou de pequenos grupos.?O Petar foi durante 25 anos um parque de papel, sem demarcação de terra e contanto com apenas um funcionário, o Zé das Grutas, que pouco podia fazer para cuidar de uma área tão grande. Somente em 1983, quando fui trabalhar na Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista (Sudelpa), durante o governo Montoro, consegui criar uma equipe para implantar efetivamente o parque?, conta Clayton Ferreira Lino, presidente da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que conheceu e se apaixonou pela região como espeleólogo, em 1972.Essa implantação, porém, não foi nada tranqüila, pois 80% da área do parque era coberta por alvarás de mineração. Doze mineradoras irregulares, que exploravam ouro, prata, chumbo e calcário, e três serrarias, atuavam dentro do Petar. ?O parque só passou mesmo a existir quando conseguimos fazer a demarcação e efetivar o Núcleo Santana, principal destino turístico e de pesquisas, por conta das cavernas e cachoeiras da região e, assim, vencer os conflitos mais pesados?, diz Lino. Para demarcar os limites do Petar foi necessário abrir clareiras e trazer os marcos de helicóptero. A primeira construção, uma casa para receber os funcionários, foi destruída por motosserra na primeira noite depois de pronta.Atualmente, segundo o presidente da RBMA, os maiores problemas do parque referem-se aos impactos da visitação. ?Como em todas as unidades de conservação, faltam recursos humanos e financeiros ao Petar, que precisa de mais infra-estrutura e reciclar a capacitação de monitores. Mas seu potencial é enorme. Tem capacidade para receber ainda mais visitantes e com muito menos impacto?, acredita.Para Lino, a grande prioridade é a elaboração de um plano de manejo, que traga as grandes estratégias para a área. ?Não é uma unidade desgovernada, tem um gestão, mas não é o suficiente?. Outra frente importante seriam as parcerias com entidades ambientalistas, de espeleologia, associações de monitores e pousadas da região. ?Isto já vem acontecendo e deve ser fortalecido com a formalização do conselho consultivo do parque?.Uma dessas parcerias foi a portaria da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, publicada em abril passado, que criou um grupo de trabalho com a Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) e a RBMA para reavaliar as condições de segurança nas cavernas mais visitadas e adoção de medidas emergenciais, como o cadastramento dos monitores de operadoras de turismo e pousadas, que acompanham turistas dentro das cavernas, e fazer uma revisão nas trilhas e áreas restritas por problemas de segurança.Outra iniciativa conjunta do Instituto Florestal e a RBMA, junto com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), foi a revitalização da Trilha do Betari, cuja primeira fase acaba de ser concluída. Caminho utilizado desde a época dos índios, a trilha foi usada por moradores, espeleólogos e turistas. Agora, foi restaurada e dotada de infra-estrutura de interpretação, tornando-se também um atrativo do parque e não apenas uma passagem.

Agencia Estado,

15 de maio de 2003 | 16h11

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