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Mais um bípede em nosso passado

Grupo de cientistas decide examinar pegadas de animal, que foram descobertas na Tanzânia, na África

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2021 | 05h00

Aproximadamente 3,66 milhões de anos atrás uma erupção vulcânica cobriu extensas áreas da Tanzânia com cinzas. Dezenas de espécies de animais caminharam sobre essas cinzas, deixando pegadas similares às que deixamos na areia quando caminhamos na praia. Essas pegadas foram descobertas por cientistas na década de 1970 – mais de 18.400 de dezenas de mamíferos extintos, aves e répteis. 

Em 1976, foram descobertas pegadas de um bípede (que caminha sobre dois pés), mas eram estranhas, pareciam que o animal, a cada passo, cruzava as pernas. Algo semelhante ao que fazem as modelos quando desfilam nas passarelas. Dois anos depois, foram descobertas pegadas, também de um bípede, nas quais o posicionamento dos pés era similar ao nosso e dos macacos modernos. Foi essa segunda descoberta que demonstrou que o bipedalismo surgiu muito cedo na nossa evolução. O bipedalismo é exclusivo dos hominídeos e libera as patas anteriores para outras atividades como recolher alimentos ou datilografar. Mais tarde, o animal que produziu essas pegadas foi identificado como Australopithecus afarensis. A famosa Lucy é um exemplar dessa espécie que acreditamos ter dado origem, ao longo de milhões de anos, à nossa espécie. 

Na época, as pegadas foram estudadas e novamente enterradas para evitar que a erosão as destruísse. As pegadas descobertas em 1978 ficaram famosas, mas as primeiras caíram no esquecimento. Nessa sequência de cinco pegadas, as marcas dos pés eram diferentes e esse andar, cruzando as pernas a cada passo, difícil de explicar. Alguns cientistas acreditavam que teriam sido feitas por um urso andando sobre as patas posteriores. Agora um grupo de cientistas resolveu examinar com cuidado essas cinco pegadas misteriosas. 

Eles voltaram ao local e reescavaram a região, descobrindo novamente as pegadas. Elas foram limpas e documentadas com técnicas modernas. Comparando essas pegadas com as produzidas por macacos, gorilas e com marcas deixadas por ursos quando caminham sobre as patas posteriores foi possível descartar a possibilidade de que teriam sido feitas por ursos. Além disso, a impressão deixada pelos dedos no solo mostrou que provavelmente não foram de um Australopithecus afarensis. A conclusão é que provavelmente foram feitas por outra espécie de animal, talvez semelhante ao A. afarensis, que tinha um formato diferente de pé e caminhava cruzando as pernas a cada passo.

Essa descoberta demonstra que, quando surgiram os primeiros bípedes, esse modo de locomoção não apareceu em somente uma espécie, mas provavelmente apareceu mais de uma vez em diferentes espécies. Essa segunda espécie, que andava cruzando as pernas, ainda é desconhecida pois somente conhecemos os crânios da maioria das espécies que viveram milhões de anos atrás. E, como você deve imaginar, é impossível a partir de um crânio saber como seu dono caminhava. Naquela época, pelo menos duas espécies de bípedes vagavam pela Tanzânia.

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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