Pablo Trindade e Erick Loiola (IDOR)
Pablo Trindade e Erick Loiola (IDOR)

Mais um estudo confirma que zika mata células do cérebro

Trabalho americano mostra que vírus atinge as células-tronco que são precursoras do córtex cerebral; dano pode ser o caminho para explicar surto de microcefalia

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

04 Março 2016 | 14h24

Em um intervalo de apenas dois dias, duas pesquisas independentes, uma no Rio de Janeiro e outra nos Estados Unidos, chegaram a conclusões muito parecidas sobre como o vírus zika é capaz de agir no cérebro, infectando e matando células neuronais, o que reforça a suspeita de que o vírus está por trás do aumento no número de casos de microcefalia no Brasil.

Na quarta-feira, 2, um grupo carioca liderado pelo neurocientista Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto D’Or de Pesquisa, publicou um trabalho, em sistema de preprint (antes de avaliação por pares), que mostra que o zika infecta as células que agem como progenitoras cerebrais, ou seja, que dão origem ao órgão, o que acaba tendo efeito no seu desenvolvimento. 

Nesta sexta-feira, 4, um grupo de pesquisadores das universidades americanas Johns Hopkins e Estadual da Flórida publicou um trabalho na revista Cell Stem Cell, com achados muitos parecidos. Segundo eles, o vírus zika é capaz de infectar um tipo de célula-tronco neuronal que dá origem ao córtex cerebral, a área responsável pelas capacidades intelectuais.

Trabalhando com células-tronco de pluripotência induzida cultivadas in vitro, assim como o grupo do Rio, eles observaram que as células infectadas ficam mais propensas a morrer e menos propensas a se dividir normalmente e criar novas células cerebrais. Durante o estudo, eles notaram que a infecção acontecia em três dias. Na sequência, as células acabavam sendo usadas para replicação viral. 

Os pesquisadores ressaltam que os resultados ainda não provam a relação com microcefalia em bebês gestados por mães infectadas pelo vírus, mas revelam onde o zika é capaz de causar danos.

Segundo eles, esse trabalho é só o primeiro passo. O grupo lembra que ainda não se sabe, por exemplo,  o que está acontecendo no desenvolvimento do feto. “Pelo nosso estudo, sabemos que o zika pode infectar e destruir ou ao menos atrasar o crescimento das células neuronais progenitoras do córtex em cultura de células”, disse ao Estado Guo-li Ming, neurocientista da Johns Hopkins. “Para saber se isso tem como consequência direta a microcefalia precisamos de mais estudos e essa evidência deve vir de estudos clínicos.”

Ming disse que leu ontem o trabalho de Rehen com grande interesse e ficou feliz de as conclusões convergirem. “Fica claro que a infecção por zika impacta o crescimento e a sobrevivência das células-tronco. Os dois estudos também validam que as células-tronco cultivadas em laboratório são um bom modelo experimental para avançar o conhecimento sobre a microcefalia.”

Rehen também reforçou que a existência dos dois trabalhos consolida os dados. “Mas para entender a microcefalia ainda precisamos de mais estudos. Alterações no ciclo celular também podem estar envolvidos. Não é só a morte celular que conta”, diz.

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