Mais velho, poucos amigos?

Um curioso estudo divulgado na última semana mostrou que a redução do número de amigos com a idade, tão comum entre os humanos, pode não ser exclusiva da nossa espécie. Aparentemente, macacos também passariam por processo semelhante em suas redes de contatos sociais, o que poderia sugerir um caráter evolutivo desse fenômeno.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2016 | 03h00

O trabalho, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa com Primatas em Göttingen, Alemanha, identificou uma redução do “grooming” (tempo dedicado ao cuidado com outros indivíduos, como limpar o pelo e catar piolhos) entre os macacos mais velhos da espécie Macaca sylvanus. Além disso, eles praticavam “grooming” em um número menor de “amigos” ou parentes. 

Fazer “grooming” está para os macacos mais ou menos como o “papo” para nós. Da mesma forma que o “carinho” humano, ele parece provocar a liberação de endorfinas, substâncias que provocam em nós e em outros animais uma sensação de bem-estar. 

Na pesquisa, publicada pelo periódico New Scientist, os cientistas perceberam que macacos de 25 anos tiveram uma redução de até 50% do tempo de “grooming” quando comparados com adultos de 5 anos. Se esse fenômeno acontece em outros primatas, ele também pode ter chegado a nós ao longo do caminho de formação da nossa espécie. Se chegou, qual teria sido a vantagem evolutiva?

Durante muito tempo se especulou que esse “encolhimento” social em humanos seria, na verdade, resultado de um processo natural de envelhecimento, em que depressão, morte de amigos, limitações físicas, vergonha da aparência e menos dinheiro poderiam limitar as novas conexões. Mas, pesquisando os idosos, se percebeu que ter menos amigos era muito mais uma escolha pessoal do que uma consequência do envelhecer. 

Uma linha de investigação explica que essa redução dos amigos seria, na verdade, uma seleção dos mais velhos de como usar melhor o tempo. Mas outros especialistas defendem a ideia de que os mais velhos teriam menos recursos e defesas para lidar com estresse e ameaças e, assim, escolheriam com mais cautela as pessoas com quem se sentem mais seguros (os amigos) para passar seu tempo.

Sobre onças, gorilas e homens. Por falar em primatas, o episódio da queda de uma criança no recinto dos gorilas no Zoológico de Cincinnati, nos EUA, mostra que tão importante quanto proteger os humanos dos animais é proteger os animais dos humanos. O gorila teve de ser sacrificado porque a criança estava em situação de risco.

Muitos dos zoológicos do mundo, construídos no século 19 e começo do 20, priorizavam a exibição dos animais em detrimento de seu conforto. Essa visão anacrônica e essa proximidade se mantêm até hoje e trazem riscos. A invasão recente do espaço dos leões no zoo de Santiago, no Chile, por um homem que tentava se matar e uma criança que, em 2014, teve seu braço amputado após se aproximar de forma perigosa da jaula de um tigre em Cascavel, no Paraná, revelam que o modelo desse tipo de zoológico está mais que ultrapassado. Se é que a existência deles hoje se justifica. Pais que não controlam filhos e o furor das “selfies” em situações extremas mostram que os animais precisam urgentemente de uma proteção maior do que a que existe hoje.

Mas, pior do que os zoos, foi a imbecilidade de se levar uma onça acorrentada para ser mostrada como “troféu” na passagem da tocha olímpica por Manaus, na última semana. Mesmo criada em cativeiro, uma onça é uma onça. Qualquer felino tem seu comportamento alterado quando é submetido a situações de estresse. 

Ao enfrentar dor, desconforto ou se sentir ameaçada, a onça faz o que qualquer animal selvagem faria: tenta escapar e pode atacar. Além de constrangedor, o episódio da onça que foi morta a tiros porque colocou humanos em perigo sinaliza total falta de bom senso. Que seja proibido de vez esse tipo de espetáculo grotesco no País.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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