David Lat/Free Images
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Manipulando nosso relógio interno

Experiência subjetiva da passagem do tempo algumas vezes anda mais rápido ou mais lentamente que o relógio objetivo que temos no pulso

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 03h00

O elevador da minha casa leva exatos 47 segundos para ir do térreo ao meu andar. Muitos dias entro no elevador, fecho os olhos, e estimo mentalmente os 47 segundos. Quando minha mente decide que eles passaram, abro os olhos. Muitas vezes o elevador chega ao andar antes do meu relógio interno contar 47 segundos; em outras, abro os olhos pensando que se passaram 47 segundos, mas o elevador continua subindo. Esse experimento simples demonstra que nosso relógio interno, nossa experiência subjetiva da passagem do tempo, algumas vezes anda mais rápido ou mais lentamente que o relógio objetivo que temos no pulso.

Faz muitos anos que se suspeita que nosso relógio interno é controlado por um grupo de neurônios dopaminérgicos em uma região específica do cérebro. A novidade é que agora, manipulando esses neurônios, os cientistas conseguiram fazer o tempo subjetivo acelerar ou desacelerar.

Os cientistas usaram um experimento muito interessante. Eles colocaram camundongos em uma gaiola, com três buracos alinhados horizontalmente na parede. Quando o camundongo coloca o nariz no buraco do meio, ele ouve um apito. Passado um intervalo de tempo, que varia entre 0,6 segundo e 2,4 segundos, ele ouve um segundo apito. Se o intervalo entre os apitos é longo (maior que 1,5 segundo), a água fica disponível no buraco da esquerda. Se o intervalo entre os apitos é menor, a água fica disponível no buraco da direita. Assim, para beber água o camundongo precisava “decidir” se o intervalo entre os apitos era maior ou menor que 1,5 segundo.

Depois de o camundongo aprender o truque, os cientistas mediram a taxa de acerto. Quando o intervalo entre os apitos estava nos extremos (0,6 segundo ou 2,4 segundos), o acerto na escolha do buraco onde estava a água era de 100% - os bichinhos nunca erravam. Quando o intervalo se aproximava do ponto central (1,5 segundo), a taxa ia diminuindo. E quando o intervalo entre apitos era de exato 1,5 segundo, os camundongos acertavam em somente 50% dos casos, como era de se esperar.

Feita a curva da taxa de acerto do camundongo versus o tempo entre os apitos, os cientistas puderam começar a manipular os neurônios dopaminérgicos dessa região específica do cérebro e verificar o comportamento do camundongo. Em um primeiro experimento, eles destruíram parte desses neurônios. O que eles observaram é que o camundongo agora acertava menos em todos os intervalos, ou seja, o relógio interno ficou menos preciso, tanto em intervalos de tempo grandes quanto em pequenos. Mesmo quando o intervalo de tempo era muito longo ou muito curto, o camundongo só acertava onde estava a água em 75% dos casos. Ou seja, o relógio interno havia ficado menos confiável.

Mas o mais interessante foi o que eles observaram quando ativaram ou reprimiram a atividade desse grupo de neurônios. Quando eles ativaram esses neurônios, o relógio interno dos camundongos passou a andar mais lentamente e os dois ruídos separados por 1,5 segundo eram medidos pelo relógio interno como 0,6 segundo e eles sempre iam buscar a água no buraco da direita. O contrário foi observado quando os neurônios foram reprimidos: o relógio interno “percebia” 1,5 segundo como se fosse 2,4 segundos e o camundongo ia buscar a água no buraco da esquerda. Como essa estimulação ou inibição era reversível, passado o efeito do tratamento, o comportamento do camundongo voltava ao normal.

Esse experimento demonstra que o relógio interno é controlado por um simples grupo de neurônios dopaminérgicos, e esse relógio pode ser manipulado para perder a sensibilidade, andar mais rápido ou mais lentamente que o relógio objetivo (o que temos no pulso).

É impressionante saber que uma característica aparentemente tão complexa como o funcionamento de nosso relógio interno é controlada por alguns neurônios e pode ser manipulado ao nosso bel prazer alterando a atividade desses neurônios. Agora já sei o que deve estar acontecendo com meus neurônios dopaminérgicos quando o elevador chega antes ou depois da expectativa criada por meu relógio interno.

MAIS INFORMAÇÕES: MIDBRAIN DOPAMINE NEURONS CONTROL JUDGMENT OF TIME. SCIENCE, VOL. 354 PÁG. 1.273 (2016)

* É BIÓLOGO

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