Maré negra causa "maré de ira" na França

Maré "Colère" (raiva). É a palavra mais ouvida na mídia para definir o estado de espírito dos franceses diante da constatação de que 200 quilômetros de seu litoral já tinham sido atingidos, nesse fim de semana, pelas manchas do óleo vazado pelo Prestige, na Espanha. E a situação tende a se agravar ainda mais nos próximos dias.A "raiva" decorre do fato de que desde novembro Paris estava suficientemente avisada para o perigo de a maré negra assolar as praias francesas. As ministras do Meio Ambiente e da Defesa sobrevoaram o início da "viagem" das manchas para o estuário francês da Gironda, e as bacias de Aquitaine e de Arcachon.O presidente Jacques Chirac exprimiu então sua "revolta e indignação". Quando a costa francesa foi abordada no "réveillon" pela poluição anunciada, o primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, com suas botas de borracha, foi lá, chutou uma das bolas de óleo "desembarcadas" na praia. No meio de uma roda de pescadores, falou de "barbárie" e comunicou a liberação de 50 milhões para as ações de emergência.Como a veemência verbal das autoridades não se traduziu na prática imediata dessas ações de emergência - incluindo o envio de barcos equipados com redes para barrar o avanço das manchas e coletá-las em alto mar, além da mobilização massiva de voluntários para os trabalhos de limpeza das áreas já afetadas -, a crise de nervos se abateu sobre os franceses. Seus governantes, é a grita geral, promoveram apenas um "marketing antidesastre", para não sofrerem o mesmo desgaste do primeiro-ministro espanhol José María Aznar, que demorou a reagir em face da catástrofe na Galícia.Desde domingo, a ministra francesa da Ecologia, Roselyne Bachelot, se desdobra entre os microfones da mídia, tentando acalmar os franceses, cujos humores se tornaram ainda mais intimidantes ante o choque de imagens exibido a cada instante pela TV - choque entre a maré negra do óleo e a maré branca da neve que invade a França, acompanhada de chuvas torrenciais. De norte a sul, numerosos eixos rodoviários estão bloqueados, os engarrafamentos se sucedem e se confundem com as explosões do temperamento nacional. À beira das estradas, com gestos desmesurados e injúrias tonitruantes, os franceses tomam todo o universo como testemunha dos tormentos que amargam neste inverno.O governo central francês - que, segundo os protestos públicos, não adotou as providências necessárias para limitar os estragos, recebeu pedido das autoridades regionais para que envie 2.000 soldados para que ajudem a recolher o petróleo que se espalha pelas praias do sudoeste da França.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 17h55

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