Gilles Sabrie/The New York Times
Gilles Sabrie/The New York Times

Médico planeja realizar transplante de corpo inteiro na China

Proposta do cirurgião Ren Xiaoping preocupa especialistas do mundo todo e gera debate sobre limites éticos e práticos da ciência

Didi Kirsten Tatlow, The New York  Times

22 Junho 2016 | 08h00

HARBIN - Há seis anos, Wang Huanming ficou paralisado do pescoço para baixo depois de se ferir em uma luta com um amigo. Hoje, ele espera ter encontrado a resposta para voltar a andar: um novo corpo para sua cabeça.

Wang, de 62 anos, é funcionário aposentado do setor petroleiro e uma das muitas pessoas na China que se voluntariou para receber um transplante de corpo inteiro em um hospital na cidade de Harbin, no norte da China.

A ideia do transplante de corpo alarmou especialistas de todo o planeta, preocupados com até onde a China está forçando os limites éticos e práticos da ciência. Pelo menos por enquanto, esse tipo de transplante é impossível, de acordo com importantes médicos e especialistas, até na própria China, que apontam a dificuldade da reconexão de nervos na espinha. Caso o procedimento falhe, seria morte certa para o paciente.

O cirurgião ortopedista que propôs a operação, o doutor Ren Xiaoping da Universidade de Medicina de Harbin, que participou do primeiro transplante de mão dos Estados Unidos em 1999, afirmou que nada irá detê-lo. Em uma entrevista, Ren afirmou que está montando uma equipe, que a pesquisa já está sendo realizada e que a operação será realizada "assim que estivermos prontos".

Seu plano: remover duas cabeças de dois corpos, conectar as veias do corpo do doador morto à cabeça do recipiente, inserir uma placa de metal para estabilizar o novo pescoço, banhar os nervos com uma espécie de cola que ajuda na regeneração e por fim costurar a pele.

Entretanto, importantes especialistas médicos condenaram o plano, mesmo que nunca venha a ser realizado.

"Para a maioria das pessoas, ele é prematuro ou completamente irresponsável", afirmou o Dr. James L. Bernat, professor de Neurologia e Medicina na Faculdade de Medicina Geisel do Dartmouth College.

O Dr. Huang Jiefu, ex-vice-ministro da Saúde na China, afirmou em uma entrevista em novembro que uma vez que a espinha é cortada, os neurônios "não podem ser reconectados, o que torna o procedimento cientificamente impossível".

"É impossível fazer isso eticamente. Como você poderia colocar a cabeça de uma pessoa no corpo de outra?", acrescentou Huang.

Os críticos atribuem esse tipo de experimentação médica na China à ambição nacional, aos generosos financiamentos estatais, a uma visão de mundo utilitarista e à falta de transparência e responsabilidade junto ao resto do mundo.

"O sistema chinês é qualquer coisa, menos transparente. Não confio nas deliberações, nem nas políticas bioéticas dos chineses. Com tanta política, empreendedorismo e orgulho nacional envolvidos, é difícil saber o que está acontecendo", afirmou Arthur L. Caplan, eticista médico da Universidade de Nova York.

Alguns pesquisadores chineses também temem que o experimentalismo esteja indo longe demais e a um ritmo muito acelerado.

"Não quero que os acadêmicos, que os médicos especializados em transplantes e os cientistas chineses aprofundem a impressão que as pessoas têm de nós no mundo todo. Muita gente acha que quando os chineses pesquisam, não temos qualquer limite concreto, que aqui tudo é possível", afirmou Cong Yali, eticista médico da Universidade de Pequim, referindo-se aos planos de Ren.

O governo chinês investiu 1,42 trilhão de yuans (ou US$ 216 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento científico no ano passado, comparado com 245 bilhões de yuans em 2005, de acordo com o Bureau Nacional de Estatísticas.

No ano passado, os pesquisadores da Universidade Sun Yat-sen, na cidade de Guangzhou, no sul da China, alteraram em um embrião humano o gene causador de talassemia, uma rara doença sanguínea, utilizando uma técnica desenvolvida nos Estados Unidos.

O experimento ultrapassou os limites éticos, de acordo com cientistas da China e de outros países, uma vez que as mudanças seriam hereditárias caso fossem conduzidas em embriões viáveis - o experimento utilizou embriões não viáveis. Isso poderia abrir o caminho para mudanças genéticas permanentes de qualidades como aparência e inteligência.

Apesar das preocupações, em abril deste ano outra equipe de Guangzhou alterou embriões para torná-los resistentes ao HIV. No mundo todo, alguns cientistas criticaram o experimento, citando a falta de consenso sobre a ética desse tipo de trabalho.

A equipe da Universidade de Medicina de Guangzhou afirmou que "ainda existem enormes questões técnicas não resolvidas", acrescentando que por razões éticas não defenderia a edição do genoma de linhagens viáveis "até que discussões e avaliações rigorosas e completas sejam realizadas por comunidades de pesquisadores e eticisitas do mundo todo".

Ren experimentou com transplantes de cabeça em ratos, mas eles sobreviveram por apenas um dia. Segundo ele, também começou a praticar com cadáveres humanos, mas se negou a dar detalhes.

O médico e seus apoiadores afirmam que a operação poderia vir a ajudar pessoas com doenças potencialmente fatais e que afetam as funções físicas dos pacientes, como atrofia muscular espinhal, além de pessoas paralisadas, como Wang.

Alguns aspectos do plano são tecnicamente possíveis, afirmou o Dr. Abraham Shaked, professor de cirurgia e diretor do Instituto de Transplantes Penn, da Universidade da Pensilvânia. Ele afirmou que talvez seja possível preservar o cérebro do recipiente e o corpo do doador antes do transplante, reconectar boa parte das veias e músculos e controlar as reações imunológicas adversas.

Contudo, ainda não é possível conectar os nervos da espinha, afirmou Shaked.

"Neste momento, eu diria que a tentativa é mais estúpida que maluca. Maluca significa que poderia ser feita. Estúpida significa que não deveria nem ser tentada", afirmou por e-mail.

Quanto a usar o polietileno glicol para facilitar o crescimento dos nervos, Shaked afirmou que "diria o seguinte: é como se um cabo de telefone transatlântico fosse cortado ao meio e alguém tentasse colar de volta com Super Bonder".

Ren concorda que seria imensamente difícil.

"Sou médico na China e no exterior há mais de 30 anos. Já realizei as operações mais complicadas. Mas não sei nem como compará-las e essa", afirmou em uma entrevista. "Quanto a ser ético, ou não, trata-se da vida de uma pessoa. Não há nada mais precioso que a vida, e isso é o mais importante da ética."

Quando questionada, a Comissão de Saúde da China afirmou que os cirurgiões precisam seguir as responsabilidades éticas descritas pela regulamentação nacional do transplante de órgãos humanos.

Em meio às incertezas médicas e éticas, Wang e sua família não perdem a esperança.

Durante três anos, a filha, Wang Zhi, de 34 anos, e a esposa de Wang bombearam oxigênio manualmente para seus pulmões. Atualmente, contam com uma bomba automática recebia por meio de doações. Mas as contas médicas consumiram todo o dinheiro que a família havia poupado, afirmou Wang Zhi.

"Ele não consegue viver, nem pode morrer", afirmou.

A família sabe que caso a operação falhe, Wang Huanming irá morrer. Mas pelo menos ela dá alguma esperança em meio à descrença no futuro.

"Um procedimento médico que parece impossível pode nos salvar", disse Wang Zhi.

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