Médico que alega ligação entre vacina e autismo é cassado no Reino Unido

Andrew Wakefield foi o primeiro a publicar um trabalho sugerindo a conexão, desmentida em outros estudos

Associated Press

24 Maio 2010 | 15h20

A mais importante associação médica do Reino Unido cassou um médico cujo estudo sugerindo uma ligação entre uma vacina comum e o autismo fez com que milhões de pais em todo o mundo abandonassem as vacinações para sarampo, coqueluche e rubéola.

 

Lancet faz retratação de estudo ligando vacina a autismo

 

Andrew Wakefield foi o primeiro a publicar um trabalho científico sugerindo a conexão. O estudo caiu em descrédito mais tarde, e a revista que o publicou fez uma retratação. Agora, o Conselho Médico Geral do Reino Unido considerou Wakefield culpado de grave delito profissional.

 

O médico hoje vive nos Estados Unidos, onde montou um centro de estudo do autismo e tem seguidores, embora a comunidade médica americana também não leve suas alegações a sério. A decisão britânica o impede de exercer a Medicina no Reino Unido, mas não em outros países.

 

Em entrevista a uma emissora de televisão, Wakefield descreveu a decisão como "um pequeno buraco na estrada". Ele diz que o governo dos EUA vem pagando indenizações por autismo supostamente causado por vacinas desde 1991.

 

Wakefield disse que a decisão contra si - baseada em acusações de comportamento antiético no curso da pesquisa - estava "definida desde o início" e prometeu continuar suas pesquisas sobre o elo entre vacinação e autismo.

 

"Esses pais não vão sumir, essas crianças não vão sumir e eu certamente não vou sumir", disse ele.

Duas decisões de um tribunal federal dos EUA determinaram que não há ligação entre vacina e autismo. Mas mais de 5.500 queixas foram apresentadas ao Judiciário por famílias que buscam indenização para crianças que, alegam, foram prejudicadas pela vacina de sarampo.

 

Wakefield tem direito de apelar da decisão, que entra em vigor em 28 dias.

 

As taxas de vacinação no Reino Unido nunca se recuperaram desde que a pesquisa de Wakefield foi publicada em 1998, e desde então há epidemias de sarampo no país a cada ano. A doença também está voltando a ter proeminência nos EUA.

Diversos outros estudos foram realizados desde então e nenhum encontrou a conexão alegada por Wakefield.

O conselho britânico apagou Wakefield de seus registros nesta segunda-feira e o declarou culpado de "grave delito profissional". A investigação focalizou os métodos usados pelo médico e seus colegas na realização da pesquisa.

 

Wakefield e colegas publicaram seu estuo na revista Lancet em 1998. Na época, o médico trabalhava num hospital como gastroenterologista e não tinha autorização ética para realizar a pesquisa. Ele também estava sendo pago por advogados de pais que alegavam que seus filhos tinham sido prejudicados por vacinas.

 

Dez dos coautores do estudo depois retiraram seus nomes do artigo, e o trabalho como um todo foi repudiado pela Lancet.

 

Em janeiro, o conselho médico britânico decidiu que Wakefield e dois outros médicos haviam agido sem ética e demonstrado "desprezo brutal" pelas crianças que tomaram parte no estudo.

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