Médicos pesquisam causas de tipo grave de desvio na coluna

Brasileiros buscam marcador genético que leva à progressão da escoliose idiopática; curvatura pode causar insuficiência cardíaca

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2014 | 19h14

RIO - Foi durante o banho que a mãe de Gabriela Cristina Marques Braga percebeu que a menina tinha um desvio na coluna. Ela tinha 8 anos. Três coletes ortopédicos foram usados para amenizar o problema, sem sucesso. Aos 14 anos, Gabriela passou por uma extensa cirurgia para corrigir a curvatura na espinha, que já tinha atingido 75 graus, e lhe causava dores nas pernas e dificuldades para respirar. Gabriela sofria de escoliose idiopática (sem causa definida).  

Para tentar entender o que causa essa deformidade na coluna - e por que razão em algumas pessoas a evolução é mais rápida - médicos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) iniciaram uma pesquisa para mapear geneticamente os pacientes, em busca de marcadores que indiquem que a progressão será mais acelerada.

“Existem 69 tipos de escolioses e nós conhecemos a causa delas. Mas a idiopática responde por 80% dos diagnósticos e não sabemos por que ela ocorre. Sabemos que há uma característica hereditária, por isso vamos fazer um estudo da suscetibilidade genética para entender as características da escoliose com forte progressão”, afirma o ortopedista Luiz Cláudio Schettino, chefe do Centro de Cirurgia da Coluna do Into, coordenador da pesquisa.

Ele explica que a doença pode aparecer em qualquer fase da vida, mas é mais frequente no período de formação óssea, na adolescência. A coluna vai encurvando e chega a ganhar o formato da letra S. “Quando a escoliose é fortemente progressiva o problema é maior, porque começa e evolui de maneira muito rápida. A curva acentuada causa transtorno muito grande e pode levar à insuficiência respiratória e cardíaca, se ocorrer na região da coluna torácica; ou provocar dores, quando está presente na região lombar”, explica Schettino.

A cirurgia é indicada a partir dos 45 graus de curvatura - uma prótese de titânio é fixada com pinos e parafusos ortopédicos, combinados com hastes, para acertar a deformidade e alinhar a coluna. Gabriela passou por uma operação de seis horas, recebeu 18 parafusos e duas hastes, enfrentou um período de repouso, que incluiu seis meses sem atividade física.

Aos 15 anos, fica feliz por poder andar ereta. “Minha coluna era um S. Quando eu usava colete, as pessoas faziam piada na escola, diziam que eu era um robô. Eu tirava (o colete) porque ficava com vergonha. Antes da cirurgia, já não podia correr porque sentia dor nas pernas e muita falta de ar. Agora posso andar reta, normal”, diz a adolescente, que foi liberada, na semana passada, para frequentar a academia de ginástica.

Schettino acredita que um dos benefícios de se encontrar o marcador genético que leva à progressão acelerada da escoliose é permitir a intervenção precoce, antes que a situação se agrave. “A cirurgia é grande, extensa, realizada em toda a extensão da enfermidade. Conhecendo a doença, poderemos ter no futuro outras formas de tratá-la, como uma cirurgia precoce, por exemplo”. Ao longo do estudo, 600 pacientes diagnosticados com escoliose idiopática terão o DNA analisado. A pesquisa está em fase de coleta de saliva e deverá ser concluída em três anos. 

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