Médicos que fizeram transplante de rosto recebem críticas

As equipes médicas da França que, no iníciode semana, fizeram o primeiro transplante mundial de rosto têm recebido críticas de colegas por terem precipitado a operação para serem os pioneiros e por se apropriarem de protocolos teóricos queoutros haviam estabelecido. O cirurgião plástico Laurent Lantieri, que trabalha no HospitalHenri-Mondor de Créteil, perto de Paris, os acusa indiretamente de terem usado seu protocolo para este tipo de transplante e de terem posto em prática sem comunicá-lo, disse o jornal francês Le Journaldu Dimanche.Lantieri afirmou que o chefe do serviço maxilofacial do Hospital de Amiens, Bernard Devauchelle, que comandou a intervenção, havia solicitado o protocolo em maio. "Depois, não tive qualquer notícia", acrescenta o cirurgião do Créteil. Latieri destacou que não tem "pressa" em colocá-lo em prática já que seus pacientes "não estão em risco de morte".Uma cirurgiã que participou da equipe pioneira em Amiens, Sylvie Testelin, se defende das denúncias veladas de Lantieri: "Seu protocolo tinha 10 páginas. O nosso, 70. Portanto, talvez tenha sido o primeiro a ter a idéia, mas fomos nós que a realizamos".O mentor da operação, o chefe do serviço de transplantes do Hospital Universitário de Lyon, Jean-Michel Dubernard, que realizou o primeiro transplante de mão em 1998, destaca: "Tivemos todas asautorizações". Dubernard ficou indignado e lembrou que "se o transplante tiver êxito, será uma nova esperança para centenas de pessoas desfiguradas".A polêmica é alimentada também por Emmanuel Hirsch, responsável pelas questões de ética do Conselho de orientação da recém-criada Agência de Biomedicina, que se queixa de não ter sido informado. A diretora da agência, Carine Camby, argumentou que o órgão deorientação não havia sido criado em maio e, em 2004, uma determinação proibiu o transplante total de rosto, mas autorizou o parcial - como o feito - sob certas condições.Hirsch, no entanto, disse ter a impressão que "tudo foi feito com precipitação": "Não levaram em conta todas as garantias quando não havia qualquer urgência vital. Pessoalmente, teria emitido sérias reservas a este transplante", acrescentou. Ele apontou o perfil psicológico frágil da paciente - uma mulherde 38 anos identificada como Isabelle D. -, e lembrou que o enxerto de rosto cria um desafio médico, mas também psicológico, porque coloca em jogo a identidade da pessoa.Uma das filhas da paciente contou à imprensa que a desfiguração do rosto de sua mãe foi resultado das mordidas de seu cachorro em maio. Ela estaria em casa, nos arredores de Valenciennes (norte daFrança), e tomou muitos remédios, supostamente para se suicidar. De acordo com essa versão, as duas filhas da paciente, de 14 e 17 anos, teriam ido dormir na casa da avó após uma discussão com a mãe. Isabelle D. seria descrita como muito introvertida, com poucoscontatos fora de sua família e brigada com seu pai há 20 anos.Dubernard, no entanto, nega que ela tenha tentado suicidar. Ele explicou que a mulher "apenas brigou com a filha, que foi para a casa de sua mãe": "Como havia se alterado, tomou um ou dois comprimidos para dormir". Enquanto estava dormindo, sofreu o ataque do cachorro e foi levada ao serviço de emergência do hospital de Valenciennes, onde só puderam costurar alguns ferimentos. Dubernard reltaou que a paciente passa bem, mas entrou "em uma fase crítica que pode durar várias semanas".

Agencia Estado,

04 de dezembro de 2005 | 13h15

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