Meio Ambiente é de discípula de Chico Mendes

Sobrevivente por natureza e vencedora por obstinação, a senadora reeleita Marina Silva (PT-AC), 44 anos, nasceu para ser pioneira. Depois de ser a senadora mais jovem da República, ao ser eleita em 1994 com 36 anos, Marina foi anunciada ontem, pelo próprio Lula, como o primeiro nome oficial do novo governo. E no mesmo dia em que ganhou o Ministério do Meio Ambiente, levou um prêmio da mesma pasta. Segundo anúncio do ministro José Carlos Carvalho, Marina venceu o Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente, na categoria "Liderança Individual" por suas atividades em defesa da Amazônia. Até ser agraciada ontem pelo presidente eleito e pelo ministro do Meio Ambiente, entretanto, Marina precisou alcançar outras proezas. Depois de ser uma das oito crianças sobreviventes numa família de onze irmãos, no Seringal Bagaço, a 70 km de Rio Branco (AC), Marina aprendeu as operações básicas de matemática com 14 anos, perdeu a mãe com 15 e contraiu hepatite com 16, quando resolveu estudar. Queria ser freira. Para isso, trabalhou como doméstica e começou a frenqüentar o Mobral. Com dois supletivos, chegou aos 20 anos pronta para tentar o vestibular. O sonho de ser freira já tinha perdido terreno para os grupos de teatro amador e as reuniões nas Comunidades Eclesiais de Base. Queria um lugar no mundo real e sabia que o seu bilhete estava na universidade. Por duas vezes, porém, teve de adiar o projeto. Perdeu as provas por causa de uma nova hepatite e depois precisou trocar o vestibular pelo casamento. No ano seguinte, mesmo com a gravidez da primeira filha, Shalon, ingressou no curso de História, quando descobriu o marxismo. A partir daí, a política passou a fazer parte de sua vida. Fundou a CUT no Acre, junto com Chico Mendes, e filiou-se ao PT. Em 1988, foi a vereadora mais votada em Rio Branco. Em 1990, candidata a deputada estadual, novamente obteve a maior votação. A frágil saúde, porém, voltou a atrapalhar a carreira. Por conta de uma contaminação, causada por metais pesados, ficou mais de um ano licenciada. O problema se repetiu no final de 2000, quando a já senadora se afastou por quatro meses para um novo tratamento. Nada disso impediu sua reeleição, neste ano, com 157.588 votos, e o reconhecimento mundial, traduzido nos prêmios Goldman de Meio Ambiente (1996), 25 Mulheres em Ação Ambiental, do Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (1997) e Mulher do Ano, pela revista americana MS (1997). Para a empresária paulista Ethel Carmona - que beneficia, comercializa e exporta madeira da região - o novo governo não poderia começar melhor. "Marina é uma verdadeira embaixadora do meio ambiente", afirma Ethel. "Antes de conhecê-la, há três anos, eu não acreditava em desenvolvimento sustentável. Hoje vejo que isso é indispensável." Graças ao projeto que Ethel montou na comunidade de Cachoeiras, com a ajuda de Marina, 19 famílias já vivem do manejo da floresta e 25 moradores aprenderam a transformar madeira em móvel. "Temos lá a primeira floresta comunitária certificada do País", orgulha-se Ethel. Marina nasceu mesmo para ser pioneira.

Agencia Estado,

11 de dezembro de 2002 | 09h33

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