Melancolia, bile negra e serotonina

'Pessoas com temperamento melancólico são tristes e desencantadas. A melancolia foi estudada por Aristóteles 2,2 mil anos atrás'

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 03h00

Pessoas com temperamento melancólico são tristes e desencantadas. A melancolia foi estudada por Aristóteles 2,2 mil anos atrás. Ele observou que grande parte dos poetas, artistas e escritores estava entre os melancólicos. Mas os melancólicos de Aristóteles também sofriam de medos e tristezas desproporcionais e sem causa aparente, se desesperavam, ficavam prostrados e hiperativos, se isolavam num canto e se matavam.

Depois de Aristóteles, Galeno descreveu a melancolia como algo normal, mas que aparecia de forma exacerbada em algumas pessoas. Epidemias de melancolia foram descritas por Cassiano em monges reclusos, e na Idade Média, Teresa D’Ávila descreveu a melancolia que assolava freiras.

Para um leitor moderno, essas observações nada mais são que descrições de casos de depressão, doença bipolar e outras doenças psiquiátricas. E de fato, aos poucos, o que era chamado de melancolia foi sendo subdividido, classificado, e deu origem a toda classe de doenças psiquiátricas chamadas de distúrbios do humor.

As descrições dos pacientes se mantiveram rigorosamente iguais por mais de 2 mil anos de história. Essa constância demonstra que a disposição melancólica e os distúrbios de humor não são produto da sociedade moderna, como muitos acreditam, mas fazem parte da natureza humana.

Em contraste direto com a constância na descrição, as explicações e causas propostas da melancolia mudaram ao longo do tempo. Por muitos séculos, a melancolia, em todas as suas múltiplas formas e intensidades, foi atribuída a distúrbios físicos, mais especificamente às variações de quantidade e apresentação da bile negra. 

A bile negra nunca foi identificada no corpo humano, mas a ideia de que uma única substância era responsável pela imensa variedade de formas da melancolia permaneceu. Sintomas completamente distintos, como hiperatividade, prostração, isolamento e medo injustificado eram explicados por alterações na quantidade e apresentação da bile negra.

À medida que a psiquiatria passou a subdividir o que antes era a melancolia, e criou um sistema complexo de classificação e diagnóstico, a medicina passou a procurar explicações distintas para cada doença. E, no início do século 20, diferentes medicamentos foram desenvolvidos. Como a maioria desses medicamentos age sobre mecanismos distintos, a subdivisão da melancolia em diversas doenças parecia ser confirmada pelos distintos medicamentos usados em cada caso.

Mas, no final do século 20, foi descoberta uma droga capaz de inibir a recaptura de um neurotransmissor chamado serotonina. Era a fluoxetina, liberada em 1987. Depois vieram outras drogas da mesma família. São os famosos SSRI (Selective Serotonin Reuptake Inhibitor). Essa nova classe de droga, eficaz em casos de depressão, foi classificada como um novo antidepressivo.

Nas últimas décadas, psiquiatras passaram a investigar o uso dos SSRIs em várias doenças psiquiátricas e descobriram que eles são efetivos não só para tratar a depressão, mas funcionam para casos de ansiedade, manias e outras doenças psiquiátricas. Isso sugere que todas essas doenças compartilham de um mesmo mecanismo biológico que pode ser manipulado usando os SSRIs.

Hoje, a lista das doenças que são tratadas com SSRIs é praticamente igual à das doenças consideradas melancolia. De certa forma, podemos dizer que os SSRIs são medicamentos para tratar nossa antiga melancolia nas suas diversas formas. E, se quisermos levar essa associação adiante, podemos dizer que a serotonina é a bile negra, a substância cujo nível no corpo determina o aparecimento da melancolia. Aristóteles sabia do que estava falando. 

MAIS INFORMAÇÕES: THE NATURE OF MELANCHOLY: FROM ARISTOTLE TO KRISTEVA. JENNIFER RADDEN, OXFORD UNIVERSITY PRESS 2007

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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