EPITACIO PESSOA /ESTADAO
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Meninas mergulham em sonhos científicos

Projeto que foca em conhecimento da área para jovens estudantes abrirá 50 vagas a partir do dia 10. Evento ocorrerá na USP

Paula Felix e José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 03h00

SÃO PAULO E SALTO DE PIRAPORA (SP) - Quando entrava em uma loja de brinquedos, Nicóle Rolim dos Santos passava direto pelas estantes com bonecas e corria para o setor dos jogos de Física e Matemática. “Eu olhava, mexia, mas nunca tinha dinheiro para comprar”, contou a estudante, agora com 13 anos, cursando o 8.º ano do ensino fundamental em uma escola particular em Salto de Pirapora. “Minha escola é boa, mas estava sentido falta daquele algo mais que me levasse a focar a área de Ciências.” Foi quando ela viu uma página no Facebook sobre “Meninas com Ciência”.

Nicóle conta que sentiu até um arrepio. “A página dizia: ‘Se você sonha em ser cientista, é curiosa e ama aprender coisas novas, inscreva-se’. Parece que estava falando direto comigo. Mostrei para minha mãe e ela só disse que, se era o que eu queria, devia ir em frente.” A mãe é professora na escola particular em que a filha estuda. O pai de Nicóle é vendedor e a família leva uma vida simples, em um bairro periférico da cidade de 43,5 mil habitantes. “Eu vi que muitas estudantes estavam se inscrevendo e fiquei meio assim, será que tenho chance? Então veio o chamado para começar o curso.”

Foi na primeira edição no Estado de São Paulo do projeto, que teve início em 2016 no Rio e, neste ano, será realizado pela primeira vez na capital – o evento será na Universidade de São Paulo (USP) entre outubro e dezembro e as inscrições vão começar no dia 10. Para participar, é necessário estar entre o 5° e o 9° ano do ensino fundamental e poder participar de todos os encontros, que vão ocorrer aos sábados. Serão 50 vagas, metade para alunas de escolas públicas e a outra para jovens de escolas privadas. Dependendo do volume de inscrições, haverá sorteio.

Nicóle conta que, nos quatro sábados de novembro de 2017, quando compareceu às aulas, dadas no câmpus de Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mergulhou em um mundo de sonhos. “As palestras eram sobre oceanografia, astronomia, farmacologia, microbiologia e outras matérias. Eu me interessei especialmente pela astrobiologia, que pesquisa a vida fora da Terra, em outros corpos celestes.”

Nicóle diz que, após o curso, passou a ter outro conceito de si mesma. “Eu achava que tinha de fazer um curso técnico para arrumar um emprego, mas agora vejo que existem outras áreas.”

A equipe que realizou o evento da UFSCar está transmitindo a experiência da primeira edição para as professoras que vão conduzir o projeto na USP. Mírian Liza Pacheco, chefe do Laboratório de Estudos Paleobiológicos  da UFSCar-Sorocaba, diz que o projeto apresenta não só a área para jovens em idade escolar, mas mostra mulheres que se destacaram nos mais diversos campos da ciência.

"Quase todas as referências de que dispomos amplamente na divulgação científica são masculinas. Mas ao abrir os livros didáticos e de divulgação ou ao assistir a documentários, eu me perguntava quando criança 'por que não existem mulheres geniais na ciência?'. E cheguei a pensar que se eu fosse 'esforçadinha' poderia participar com alguma pequena colaboração na ciência. Com o tempo, descobri que existiram e existem sim mulheres cientistas geniais que revolucionaram o conhecimento humano."

Na USP, o projeto está sendo coordenado pela professora Camila Negrão Signori, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da universidade, onde os cursos serão realizados.

Camila diz que, embora as inscrições ainda não estejam abertas, tem recebido contatos diários ds pessoas interessadas.

"Estamos tendo muita procura, telefonemas, muitos e-mails, procura de meninas, pais, avós, professores, diretores de escola e de pessoas querendo ser voluntárias do evento. Estamos esperando mais de 2 mil inscrições."

A professora diz que o objetivo é fornecer conhecimento para as jovens e oferecer ferramentas caso elas pensem em seguir a carreira científica.

"Com o estímulo desde a infância, podemos mostrar que elas são capazes de realizar o que elas quiserem, plantar a semente dos sonhos e mostrar essa capacidade infinita que elas têm."

Entre as atividades, serão realizados jogos didáticos e atividades de laboratório, como a extração de DNA. "Vamos ligar o tipo de bico da ave com o tipo de alimento, mostrar diferentes materiais na lupa, algas no microscópio. Todas as palestrantes estão sendo orientadas a mostrar um tópico interessante em uma linguagem acessível, com oficinas e atividades práticas."

Novidades

No Rio, a iniciativa ocorre duas vezes por ano e 146 meninas já participaram nas três edições. O projeto é realizado por mulheres do Departamento de Geologia e Paleontologia (DGP) do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro  (UFRJ).

As inscrições já se encerraram, mas a quarta edição terá novidades para as selecionadas.

"Abriremos um espaço para conversas com Geólogas e Paleontólogas que trabalham na iniciativa privada, o que era uma carência, pois queremos mostrar às meninas que vários caminhos são possíveis, não apenas o acadêmico. Outra novidade que vai entusiasmar as meninas é a oficina Dança e cons(Ciência!), pois temos alunas de graduação em Dança da UFRJ que desenvolvem pesquisa sobre origem dos movimentos no DGP! Parece deslocado, mas não é, elas estão aplicando técnicas que usamos em Paleontologia na sua pesquisa e mostrarão isso em sua oficina, além de ser um momento para relaxamento e consciência corporal", explica Luciana Witovisk Gussella, professora de Paleobotânica  departamento e uma das coordenadoras do projeto.

Reconhecimento

Há 13 anos, o prêmio "Para Mulheres na Ciência", desenvolvido pela L’Oréal Brasil em parceria com a UNESCO no Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), oferece uma bolsa-auxílio para o desenvolvimento de projetos de mulheres que se destacam na área.

Vencedora na categoria matemática da edição 2018, a pesquisadora do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP) Luna Lomonaco, de 33 anos, diz que enfrentou um caminho complicado ao longo de sua carreira, tendo de superar o machismo dentro de uma área predominantemente masculina.

Ela começou os estudos na Itália e terminou na Espanha. "Cheguei na faculdade e foi um banho frio, foi chocante, tinha muito machismo e os professores eram bastante arrogantes. Tive várias experiências não confortáveis e não estava gostando daquilo, escapei no 3º ano graças a uma bolsa. Fui para Barcelona e a mentalidade era mais aberta, comecei a entender muito mais."

Luna diz que a presença menor de mulheres na ciência não tem início na faculdade, mas na infância, quando meninas não são estimuladas a conhecer a área.

"Geralmente, meninas ganham bonecas e o menino têm outros presentes, é muito sutil essa educação que estamos passando para a criança. Para a mulher, a casa, a cozinha, a boneca. Sabemos que as crianças têm curiosidade, mas, se a menina quebra um brinquedo, ela é uma menina ruim. Se um menino quebra um trem, as pessoas falam que ele vai ser um engenheiro", exemplifica.

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