REUTERS/Mary F Adams/CDC
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Micose contra malária

Os cientistas recrutaram uma micose de mosquito para controlar a malária

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 03h00

A malária se tornou um problema quando passamos a viver em cidades. A proximidade permite ao mosquito picar uma pessoa infectada e, em seguida, picar alguém sadio, transmitindo o Plasmódio. Apesar de existirem drogas que curam a doença, não há vacina. Por isso, o jeito é combater o mosquito usando inseticidas e acabando com os locais onde ele se reproduz. 

Os inseticidas são tóxicos para humanos e os mosquitos estão se tornando resistentes. É uma enorme dor de cabeça para os países da África onde ocorrem anualmente 90% de 215 milhões de casos e 500 mil mortes. A novidade é que os cientistas conseguiram recrutar um fungo que ataca os mosquitos para ajudar na guerra contra a malária.

A ideia é simples. Você pega um pedaço de pano preto (o mosquito prefere pousar em lugares escuros) e pincela no pano uma mistura de óleo de linhaça com esporos do fungo Metarhizium pingshaense, inimigo natural dos insetos. Quando pousa no pano, o esporo gruda no maldito, germina e invade o corpo, provocando enorme micose. Logo o inseto morre e o fungo pode ser observado se reproduzindo no cadáver. 

No laboratório, funciona que é uma beleza, mas o fungo leva muito tempo para matar o mosquito. Era necessário turbinar o fungo, aumentando sua letalidade. Missão para os biologistas moleculares, que selecionaram uma toxina que já havia sido aprovada pelos órgãos ambientais como inseticida natural. Essa toxina não afeta o fungo ou o humano, mas bloqueia proteínas necessárias para o funcionamento das células do inseto. Eles colocaram o gene dessa toxina no fungo, que agora causa uma micose rápida e letal nos insetos. 

Mas como testar se isso funciona nos locais onde a malária é endêmica? Soltar o fungo diretamente no ambiente não é recomendável. Aí entrou em cena um local muito especial em Burkina Faso. Em Soumousso, perto da capital, foram construídas várias casas idênticas às da região, mas com uma diferença: inteiramente dentro de uma enorme gaiola de tela fina. Nenhum mosquito entra e nenhum sai. Foram erguidas para testar, no meio da cidade, novos métodos de combate ao mosquito.

Num primeiro experimento, larvas de mosquito foram coletadas na cidade. Quando se transformaram em mosquitos, 100 foram colocados em cada uma dessas casas especiais. Em uma casa, foi pendurado um pano preto contendo só óleo de linhaça. Na segunda, o pano continha óleo de linhaça e esporos do fungo Metarhizium pingshaense sem modificação genética. Na terceira, o pano tinha óleo com esporos do fungo com a toxina letal aos insetos. 

Como nenhum cientista quis dormir nas casas para servir de alimento aos insetos, um bezerro foi colocado em cada casa durante a noite. Os insetos se alimentam sugando o sangue do bezerro, fazem sexo, colocam ovos, mas também pousam nos panos pretos. Todos os dias de manhã, os cientistas iam contar quantos insetos ainda estavam vivos. Na casa com somente óleo de linhaça, 90% dos insetos sobreviveram 14 dias. Na casa em que os esporos normais estavam presentes, 50% estavam mortos no 10.º dia. E quando os fungos contendo a toxina estavam presentes no pano preto, bastavam 6 dias para metade estar morta. Um belo resultado.

Esses insetos se reproduzem dentro das casas teladas (os cientistas deixam água parada em alguns lugares) e novos insetos nascem a cada 20 dias. Será que matar 50% dos insetos em 6 dias era suficiente para acabar com a reprodução das moscas? O experimento foi repetido com 2,5 mil mosquitos em cada uma dessas casas (coitado do bezerro) e os números foram monitorados por 45 dias. O resultado é impressionante. 

Na casa sem esporos, os mosquitos se reproduziram e, após 40 dias, sua população explodiu. O sangue do bezerro e a água parada fizeram daquela casa um paraíso. Na casa com esporos normais no pano preto, a população de insetos não cresceu, mas tampouco foi extinta em 45 dias. Já na casa com os esporos geneticamente manipulados, os mosquitos estavam extintos após 20 dias. Sucesso total.

Isso demonstra que o fungo contendo a toxina realmente extermina os insetos e pode se tornar uma arma poderosa contra a malária. O kit vai consistir em um pano preto, um vidrinho com óleo de linhaça e um envelope com esporos de fungos, algo fácil e barato de produzir. Aí basta a família preparar o pano e colocar na casa. E tem mais uma vantagem: os cadáveres de mosquitos que caem no chão estão lotados de esporos prontos para atacar novos mosquitos. 

Talvez algum dia os mosquitos se tornem resistentes ao fungo, mas o fungo também evolui sua capacidade de infectar mosquitos. Uma estratégia promissora: os cientistas conseguiram recrutar uma micose de mosquito para controlar a malária.

MAIS INFORMAÇÕES: TRANSGENIC METARHIZIUM RAPIDLY KILLS MOSQUITOES INA MALARIA-ENDEMIC REGION OF BURKINA FASO. SCIENCE VOL. 364 PAG. 894

*É BIÓLOGO

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