Ministro defende clonagem terapêutica

O governo brasileiro é a favor da clonagem de células humanas para fins terapêuticos. A afirmação foi feita pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, durante a abertura do seminário Clonagem Humana, realizado no Senado. "O avanço da ciência envolve debate e, por vezes, a reavaliação de conceitos éticos de interesse da sociedade", disse o ministro.A clonagem de células pode ter duas finalidades. A primeira, que se popularizou junto ao grande público por causa da novela ?O Clone?, é a clonagem reprodutiva, que visa a criação de um ser completo e com as mesmas características daquele que doou a célula. É o caso da ovelha Dolly. A segunda consiste no uso de células - inclusive de adultos - para o desenvolvimento em laboratório de embriões até o estágio de blastocisto. Nesse ponto do desenvolvimento do embrião é possível fazer a extração das células-tronco. Essas células-tronco podem ser usadas para criar tecidos e órgãos, a serem utlizados em transplantes.O governo brasileiro defende esse segundo tipo de clonagem. Mas para que isso seja possível, é preciso rever a legislação. A Lei de Biossegurança proíbe todo e qualquer tipo de clonagem, mas o Congresso está disposto a discutir a questão e formular uma nova lei. Já existe um projeto do senador Sebastião Rocha (PDT-AP) que proíbe a clonagem humana para fins reprodutivos. O projeto prevê prisão de 6 anos a 20 anos para quem tentar clonar um ser humano. Mas é preciso ir além, conforme admitiu o senador. "Não pode existir um abismo entre a lei e o desenvolvimento tecnológico", disse. "É preciso discutir a clonagem para fins reprodutivos e estudar se isso deve ser permitido e em que termos", completou.Na opinião do ministro Sardenberg, os debates poderiam partir da premissa de que a clonagem não reprodutiva e o uso de células-tronco, em si, não devem ser rejeitados como um procedimento de suporte a terapias médicas. Contudo, ele é contra a manipulação do DNA humano para fins seletivos ou eugênicos. "A pluuralidade de opiniões sobre a vida, a saúde e a morte explicita a necessidade da reflexão coletiva diante das dificuldades inerentes aos processo de elaboração das leis", afirmou.Segundo Lígia Pereira, professora-titular do Instituto de Biologia da USP, uma dificuldade em torno da permissão da clonagem para fins terapêuticos é que as técnicas existentes atualmente para extrair as células-tronco implicam na destruição do blastocisto, que é encarado por muitas pessoas como um feto. Por isso, muita gente é contra a liberação da clonagem terapêutica, pois vêem nela uma forma de aborto.Mas, na opinião de Lígia, essa visão não procede porque o blastocisto é um aglomerado de 100 a 200 células. "É muito diferente de um feto de três meses", argumenta. Além disso, as chances de sobrevivência de um embrião produzido nessas condições é inferior a 1%.Para o ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Luís Vicente Cernicchiaro, a clonagem não deve ser proibida "taxativamente". "É preciso regulamentar", afirmou.

Agencia Estado,

11 de junho de 2002 | 18h57

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