Miséria pode contribuir para deficiência no sistema imunológico

As discussões do Fórum do Programa Africano de Vacina contra a Aids passaram por uma a interpretação social do problema da propagação da doença no continente: a de que a pobreza e a miséria, com a conseqüente má nutrição, podem também contribuir para as deficiências no sistema imunológico. Essa interpretação, da doutora Catherine Henkins, diretora científica do Departamento de Informação Estratégica e Mobilização Social da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), seria uma das hipóteses para explicar porque o continente africano é o mais atingido do mundo pela doença.A cientista canadense participa do fórum na capital dos Camarões, onde 240 cientistas, na maioria africanos, fazem uma avaliação dos progressos obtidos na busca de uma vacina contra a Aids, depois de 80 testes clínicos em voluntários de diversos países.Catherien Henkins explicou também como certas prostitutas africanas e homossexuais americanos não se infectam com a Aids. No começo dessa pandemia, os cientistas se interessaram por essas pessoas, mas logo verificaram que elas não possuíam anticorpos, pois o vírus conseguia entrar nos seus corpos mas não em suas células por um problema genético nos receptores dessas células. Não se tratava, explica Henkins, de uma resposta ou defesa imunológica. O vírus circula pelo sangue dessas pessoas expostas, mas não consegue entrar nas células e infectá-las. Até hoje, diz ela, nenhuma pessoas infectada conseguiu se livrar do vírus. Veja a entrevista com a doutora Catherien Henkins:Quem vive num continente rico e desenvolvido como a Europa, com boa alimentação, tem sistema imunológico mais resistente? Há uma relação entre pobreza, miséria e má nutrição com pessoas mais predispostas à infecção pela aids?Podemos ver isso de duas maneiras. Muitas pessoas pobres e com fome trocam sexo por alimentos, é uma relação de necessidade com o sexo, que as torna mais vulneráveis ao HIV, principalmente quando ganham o dobro ou o triplo para fazerem sexo sem preservativo.O outro aspecto, o da pobreza, e da miséria vem merecendo estudos para saber se existe uma correlação com quebra do sistema imunitário e infecção pela Aids. É certo que a má nutrição estraga o sistema imunológico e é muito provável a existência de uma vulnerabilidade provocada diretamente e biologicamente pela pobreza.Laboratórios farmacêuticos testaram remédios ou fizeram testes clínicos com prostitutas aqui nos Camarões?Existem seis ou sete estudos em todo o mundo com um dos remédios usados na triterapia (coquetel de anti-retrovirais), bastante promissor como proteção contra a exposição ao vírus. Tomado todos os dias, esse remédio protegeria o parceiro negativo no contato com o um parceiro positivo, com problemas no uso do preservativo. Esse remédio poderia evitar a instalação do vírus nas células. Os testes implicam no uso de placebos para a metade dos pesquisados, para saber se há uma diferença no índice de incidência de infecções. Dois estudos, nos Camarões e no Camboja, com prostitutas foram suspensos. Esses estudos eram feitos em pessoas de alto risco e não com pessoas normais, como nos outros testes clínicos, talvez por ser um remédio já existente e licenciado. Mas foram saltadas algumas etapas na experiência e o uso de pessoas marginalizadas acabou por tornar os estudos suspeitos.Como viu a argumentação do cientista americano dr. Gallo de que uso da triterapia na África iria aumentar a resistência do vírus pelo fato de os africanos não tomarem os remédios corretamente? Antes de mais nada, Camarões tem um sistema universal de tratamento com triterapia, no qual quem não pode não precisa pagar e os outros pagam sendo usando seus salários. Quanto às declarações sobre resistência e que os africanos não sabem tomar os remédios, aconsidero terem sido maldosas. Fazem parte do mesmo tipo de comentários de que os africanos não têm idéia do tempo, porque não sabem ler as horas nos relógios.É bom saber que o nível de resistência é muito elevado nos EUA e na Europa. Isso porque as pessoas começaram com a monoterapia, duoterapia e só depois triterapia, quando os africanos já começam diretamente na triterapia. Existem assim uma boa possibilidade de se evitar a resistência e os africanos mostram-se extremamente felizes por terem acesso aos remédios. Para tomar os remédios existem programas de parcerias, para se ajudar na administração dos remédios.

Agencia Estado,

19 de outubro de 2005 | 01h19

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