AP Photo/Michael Dwyer
AP Photo/Michael Dwyer

Montanha-russa contra pedra no rim e calorias do canibalismo levam Ig Nobel de 2018

Paródia da célebre premiação científica homenageia as pesquisas que primeiro fazem rir e, depois, pensar

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 20h03

Pedras no rim podem ser expelidas mais rapidamente se o paciente der uma volta numa montanha-russa gigante? O canibalismo é uma boa forma de ingerir calorias? E saliva humana? Funciona mesmo para dar aquela limpadinha na sujeira que caiu na mesa?

Até parecem perguntas de crianças curiosas para entender o funcionamento do mundo, mas foram propostas por pesquisadores de verdade, que criaram metodologias para testá-las e resultaram em artigos publicados em revistas científicas. É coisa séria, mas nem por isso deixa de ser hilária. E acaba de ganhar o Nobel da ciência esdrúxula do ano. Senhoras e senhores, esses são alguns dos laureados do Ig Nobel deste ano.

A brincadeira, organizada pela revista Anais da Ciência Improvável, celebra as pesquisas que “primeiro fazem rir e depois pensar” foi anunciada na noite desta quinta-feira, 13, em cerimônia concorridíssima no Teatro Sanders, na Universidade Harvard. Os ‘prêmios’ foram entregues por verdadeiros nobéis e recebidos com muito bom humor pelos autores dos trabalhos.

Em sua 28ª edição, a paródia do ilustre Prêmio Nobel destacou 10 estudos que à primeira vista parecem piada, mas que são interessantíssimos – e podem até ser bem úteis. É o caso da investigação sobre as pedras no rim, que levou o Ig Nobel de Medicina

Os pesquisadores Marc Mitchell e David Wartinger, da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram um simulador renal, o encheram com urina, colocaram três cálculos suspensos no líquido e o levaram para dar 20 voltas na montanha-russa Big Thunder Mountain Railroad, na Disney World, em Orlando, Flórida.

A inspiração veio do que os autores disseram ser um “número considerável” de pacientes que relataram terem experimentado a passagem espontânea de cálculos renais depois de andarem no brinquedo. A ideia era checar se isso poderia acontecer. 

Para isso, os pesquisadores usaram cálculos de diferentes volumes e fizeram o passeio em posições diferentes na montanha-russa: na frente, no centro e na parte de trás dos carrinhos. No trabalho, publicado no Journal of the American Osteopathic Association, eles relataram que de fato os cálculos se moviam dentro do modelo após o passeio – e o melhor desempenho ocorria quando o modelo estava na parte traseira da montanha-russa.

O Ig Nobel de Nutrição – categoria que não existe no Nobel tradicional – foi para o pesquisador James Cole, da Universidade de Brighton (Reino Unido), por calcular que as calorias obtidas com canibalismo humano são significativamente inferiores às obtidas com dietas tradicionais de carne.

O estudo saiu na conceituada revista Scientific Reports, do grupo Nature, e avaliou a importância calórica de episódios de canibalismo no período Paleolítico. 

Na prática, Cole criou uma espécie de tabela nutricional do corpo humano para imaginar quanto poderia ser oferecido em termos de calorias (com proteína e gordura) de cada parte, como o tecido muscular, mas também de órgãos que eram consumidos em rituais de canibalismo, como pulmões, fígado, cérebro, coração, genitálias e a pele.

Não é pouca coisa. Um fígado humano, por exemplo, que pesa em média menos de 2 kg, oferece cerca de 2.500 calorias. Já os braços podem render 7.400 calorias. 

Mas comparando com a carne de bichos que também estavam na dieta dessas populações, o valor nutricional do Homo sapiens é fichinha. Enquanto os músculos humanos, por quilo, oferecem 1.300 calorias, o valor de um bisão é 2.040. De um urso é 4 mil. O que fez o autor concluir que o canibalismo era muito mais ritualístico do que nutricional.

Conheça os outros laureados

Antropologia. Tomas Persson, Gabriela-Alina Sauciuc e Elainie Madsen, por coletarem evidências, em um zoológico, de que chimpanzés imitam seres humanos quase tão frequentemente, e bem, quanto humanos imitam chimpanzés.

Química. Paula Romão, Adília Alarcão e César Viana (falecido), por medirem o quanto a saliva humana funciona para limpar superfícies sujas.

Biologia. Paul Becher, Sebastien Lebreton, Erika Wallin, Erik Hedenstrom, Felipe Borrero-Echeverry, Marie Bengtsson, Volker Jorger e Peter Witzgall, por demonstrarem que enólogos conseguem identificar, com segurança, pelo cheiro, a presença de uma única mosca em um copo de vinho

Educação Médica. Akira Horiuchi por testar, em si mesmo, as possibilidades de fazer sentado uma colonoscopia

Literatura. Thea Blackler, Rafael Gomez, Vesna Popovic e M. Helen Thompson por documentar que a maior parte das pessoas que usa equipamentos complicados não lê o manual de instruções antes de fazê-lo

Medicina reprodutiva. John Barry, Bruce Blank e Michel Boileau, pelo uso de adesivos para testar se a ereção noturna de homens com impotência estava ocorrendo dentro dos conformes

Economia. Lindie Hanyu Liang, Douglas Brown, Huiwen Lian, Samuel Hanig, D. Lance Ferris e Lisa Keeping, por investigar se é efetivo funcionários fazerem bonecos de vudu como forma de retaliação contra chefes abusivos. Aparentemente, o ato ajuda a restaurar a justiça no ambiente de trabalho. Mas, não, não tem nada a ver com magia negra. O fato de fazer um boneco desses é uma excelente forma de causar constrangimento e aquele sentimento de vergonha pelo papelão de destratar os funcionários.

Paz. Francisco Alonso, Cristina Esteban, Andrea Serge, Maria-Luisa Ballestar, Jaime Sanmartín, Constanza Calatayud e Beatriz Alamar, por medir a frequência, a motivação e a percepção de risco de motoristas que gritam e xingam no trânsito

Mais conteúdo sobre:
ciência Prêmio Nobel IgNobel Harvard

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.