Moradores torcem para que fóssil traga recursos e turismo

Cidade sofre com população em declínio e falta de atividade econômica relevante

Herton Escobar, enviado especial ,

13 Setembro 2010 | 23h59

A história de que havia um dinossauro na cidade se espalhou como fogo de palha em Coração de Jesus, no norte de Minas Gerais. Entre os moradores, não faltam lendas, especulações e desconfianças sobre quem são os pesquisadores e o que vão fazer com o tal fóssil. "Tá cheio de gente preocupada, achando que isso aqui vale algum dinheiro", debocha José Adão Pereira de Souza, o Zezinho. "Se o bicho estivesse vivo, a gente até tentava fazer alguma coisa com ele. Mas morto assim, há milhares de anos, não vale nada, não."

 

Israel Cruz, Marylene Ferreira e as filhas, com um pôster feito pelos pesquisadores para decorar a fazenda da família, onde foi encontrado o fóssil do Tapuiassauro. Foto: Filipe Araújo/AE

 

Israel Cruz e Marylene Ferreira, donos do terreno onde foi encontrado o fóssil do Tapuiassauro, caíram logo num turbilhão de boataria. "Você não imagina como encheram a cabeça dele", diz Marylene, em defesa do marido. "Rolou muita fofoca. Todo mundo ficava perguntando, falando que os cientistas eram invasores, que eles iam ganhar milhões com o dinossauro."

Foi difícil superar as suspeitas, mas a família se orgulha hoje de ter os pesquisadores  do Museu de Zoologia da USP cavoucando seu quintal. Até mudaram o nome da fazenda de Santa Tereza para Parque dos Dinossauros. "Quando comprei o terreno (em 2007) eles já tinham ido lá. Disseram que tinham achado uns ossos e que eram de dinossauro, mas eu achei que era lenda. Nunca tinha ouvido falar de dinossauro aqui no Brasil. Só via na televisão", conta Cruz, de 36 anos, que sobrevive do milho, do feijão e da laranja que planta na propriedade. "Morei muito tempo na cidade, mas sempre gostei da roça", diz.

"A maioria do pessoal aqui não acredita, não. Só de falar que tem gente da USP aqui, todo mundo já leva susto. A USP aqui em Coração de Jesus?", diz Ubirajara Macedo, o Bira, nascido e criado na cidade. Ele torce para que a descoberta traga algum turismo para a região. "Acho que o futuro daqui será por esse caminho, pelo dinossauro", diz.

Com população em declínio e sem qualquer atividade econômica relevante, Coração de Jesus parece ameaçada de extinção. Perdida no sertão, a cidade guarda ares de fronteira. A população é arredia, e os forasteiros (cientistas e jornalistas) são olhados com uma mistura de suspeita e curiosidade nas ruas. "Coração de Jesus não tem nada; não tem lazer, não tem cinema, não tem biblioteca. A vida é muito difícil aqui no sertão", afirma Bira, que diz já ter sofrido várias ameaças de morte por denunciar o tráfico de drogas e a prostituição infantil na cidade.

"Espero que o dinossauro renda algum fruto para a cidade. Coração de Jesus é muito pobre, não tem recursos para nada", diz, também, o biólogo Marcio Vieira Nobre, de 32 anos, nascido e criado na cidade. "Se trouxer algum benefício para a educação já será muito bom. Quem sabe uma biblioteca?"

Mais conteúdo sobre:
Dinossauros paleontologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.