Kayana Szymczak / The New York Times - 17/02/2016
Kayana Szymczak / The New York Times - 17/02/2016

Morre aos 92 anos E.O. Wilson, pioneiro da biologia evolutiva

Cientista americano era considerado o “herdeiro natural de Darwin” e foi responsável por mapear o comportamento social das formigas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 00h29

O cientista americano E.O. Wilson, considerado o “herdeiro natural de Darwin”, morreu aos 92 anos no domingo, 26, em Massachusetts, anunciou nesta segunda-feira, 27, a fundação que leva seu nome. Edward Osborne Wilson lecionou na Universidade de Harvard por mais de quatro décadas e escreveu dezenas de livros. Dois deles renderam-lhe prêmios Pulitzer: o primeiro, em 1979, por On Human Nature; o segundo, em 1991, por The Ants.

Wilson era famoso por seu comportamento tímido e gentil, mas escondia uma determinação feroz. Ele mesmo admitiu que foi "despertado pela anfetamina da ambição".

Quando começou sua carreira em biologia evolutiva na década de 1950, o estudo de animais e plantas parecia a muitos cientistas um hobby antiquado e obsoleto. Ele, então, se tornou pioneiro em novos campos de pesquisa. Como especialista em insetos, estudou a evolução do comportamento, explorando como a seleção natural e outras forças poderiam produzir algo tão extraordinariamente complexo quanto uma colônia de formigas.

Wilson também se tornou um pioneiro no estudo da diversidade biológica, desenvolvendo uma abordagem matemática sobre os motivos de diferentes lugares terem diferentes números de espécies. Ele era conhecido ainda por seus incansáveis pedidos para preservar os diferentes ecossistemas do planeta. "Se não agirmos rapidamente para proteger logo a biodiversidade global, perderemos a maioria das espécies que compõem a vida na Terra", disse.

Em 1996, após aposentar formalmente sua carreira iniciada na década de 50, seguiu como professor emérito e curador honorário de entomologia na universidade. No mesmo ano, lançou as bases da Fundação E.O. Wilson, dedicada ao fomento do ensino e pesquisas científicas.

“Ele mostrou que o comportamento humano tem também bases genéticas e isso rendeu críticas na época. O comportamento das formigas é 100% genético. O humano é resultado de componentes genéticos e da educação. Hoje, não se questiona isso”, diz Fernando Reinach, biológo e colunista do Estadão. “Hoje, a grande questão é o quanto é genético e o quanto é comportamental.”

Para a professora do Departamento de Botânica da USP Marie-Anne Van Sluys a polêmica foi naturalmente dissipada na medida em que os estudos de Wilson e os debates avançavam. “Muito do trabalho dele que gerou discussão era um novo olhar que ele trouxe”, afirma.

Além de prêmios, uma carreira sólida e contribuições à ciência, Wilson acumulou reconhecimento vindo de diversas áreas. O pesquisador foi considerado pela revista Time uma das 25 personalidades mais influentes nos Estados Unidos, em 1995. No ano seguinte, um dos 100 cientistas mais influentes da história. Em 2000, um dos 100 maiores ambientalistas do século. Em 2008, a Encyclopædia Britannica o elegeu um dos 100 mais importantes cientistas da história.

Sua contribuição para o ambientalismo moderno também é reconhecidamente uma das mais importantes. Na década de 1980, publicou Biofilia, um livro em que mostrava as bases da relação dos seres humanos com a natureza era inata. Wilson argumenta na obra que 99% da história humana se desenvolveu longe de cidades, em contato com o meio ambiente e nele os comportamentos da espécie se desenvolveram.

“Ele mostra, por exemplo, que o homem desde o tempo das cavernas preferiu viver em locais como encostas de montanhas ou locais altos onde poderia se proteger de ataques animais pelas costas e ver suas presas de cima, de preferência perto de um rio ou do mar, onde poderia pescar”, diz Reinach.

Entre suas obras mais famosos, a professora da USP destaca um pequeno livro Cartas a um Jovem Cientista. “Costumo usar esse livro nas aulas e mentorias”, diz Marie-Anne. “Ele mostra a importância do questionamento e das novas gerações de pesquisadores para manter o conhecimento vivo”, explica. “Ele conta que com mais de 30 anos resolveu assistir aulas de cálculo porque sentia necessidade para suas pesquisas. Na sala de aula, ao seu lado, estavam muitos de seus alunos. Aquilo mexeu com ele, mas ele precisava aprender.”

O especialista em insetos tinha "um vínculo especial" com o Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, que ajudou a salvar e onde um laboratório com seu nome foi inaugurado. Também se destacou por propor o projeto "Half-Earth", uma iniciativa ambiciosa que defende a preservação de metade da superfície da Terra, tanto terrestre como marítima, para evitar a extinção das espécies. "Sei que parece radical", admitiu Wilson, em 2016. No entanto, isso "é mais fácil de fazer do que se pensa", acrescentou à época.

"Quem somos nós, que somos apenas uma espécie, para acabar com a maioria das espécies restantes que vivem conosco neste planeta em função de nossas necessidades egoístas?", questionou.

No fim de sua vida, Wilson ainda se dedicou a questões como tentar entender as relações do homem com a religião e a ciência, defendendo uma visão harmônica e não excludente.

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