Morre o arcebispo de Aparecida dom Aloísio Lorscheider

Cardeal estava internado desde 28 de novembro, quando deu entrada no hospital com insuficiência cardíaca

Ricardo Valota, Ricardo Leopoldo e José Maria Mayrink,

23 de dezembro de 2007 | 09h23

O arcebispo emérito de Aparecida, cardeal dom Aloísio Lorscheider, de 83 anos, faleceu às 5h20 desta manhã de domingo, 23, no Hospital São Francisco em Porto Alegre (RS). Ele estava internado desde 28 de novembro, quando deu entrada no hospital com insuficiência cardíaca. Esta foi a quarta internação só neste ano do cardeal.   Veja também:Lula destaca dedicação à justiça social de d. Aloísio Lorscheider O velório do cardeal será iniciado às 16 horas na catedral de Porto Alegre. De acordo com o padre Tarcísio Rech, Secretário da CNBB da regional sul 3, o velório será aberto para a visitação pública até o final do dia 26. As últimas homenagens a dom Aloísio na capital gaúcha devem ocorrer na missa de Exéquias, que será realizada naquele dia às 18 horas, na qual devem comparecer, entre outras autoridades, representantes dos governos federal e estadual.  Após a missa, o corpo do cardeal será transladado para o município de Imigrante, a 140 quilômetros de Porto Alegre, onde deve ser velado no Convento dos Franciscanos, no bairro de Daltro Filho. No dia 27, às 17 horas, será realizada uma missa seguida do sepultamento de dom Aloísio, no cemitério dos freis franciscanos. Dom Aloísio foi bispo de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul; Arcebispo de Fortaleza, no Ceará, e de Aparecida, sua última sede, onde permaneceu até março de 2004. Exerceu importantes cargos na Igreja, tendo-os desempenhado com grande dedicação e competência: Secretário-Geral e Presidente da CNBB, Presidente do CELAM e da Cáritas Internacional, e um dos presidentes da III Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, em Puebla, no ano de 1979.  Engajamento religioso "Já estou na prorrogação, o que vier daqui pra frente é lucro", disse d. Aloísio Lorscheider em agosto de 1989, em São Paulo, onde convalescia de uma operação de emergência para implantação de duas pontes mamárias. Era a terceira cirurgia cardíaca que enfrentava - nas duas primeiras, uma em 1982 e outra em 1987, havia recebido duas safenas.  Na época cardeal-arcebispo de Fortaleza, depois de ter sido bispo de Santo Ângelo (RS), seria transferido em 1995 para a Arquidiocese de Aparecida, onde permaneceria até janeiro de 2004. Aposentou-se por idade, apesar de ter sido operado mais uma vez, em setembro de 1997, dessa vez para extrair um nódulo do pulmão. A "prorrogação" significou mais 18 anos de vida, os três últimos dedicados à pastoral num convento franciscano de Porto Alegre.  Gaúcho de Estrela, onde nasceu em 8 de outubro de 1924, d. Aloísio foi teólogo de renome e um dos cardeais mais importantes da Igreja em sua geração. Tinha 54 anos de idade em 1978 quando participou do conclave para a escolha do sucessor de Paulo VI. Chegou a Roma entre papabili (os favoritos do conclave) não italianos e teve pelo menos um voto, o do cardeal Luciani que, ao ser eleito com o nome de João Paulo I, confessou ter votado nele. D. Aloísio acabara de deixar a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cargo que exerceu por oito anos, depois de ocupar a secretaria-geral. Um mês depois, foi um dos articuladores da eleição de João Paulo II. De voz suave e posições firmes, foi um homem de diálogo e moderação, embora se identificasse com a ala mais avançada do episcopado na turbulência dos anos do regime militar. Em outubro de 1970, quando era secretário e seu primo, d. Ivo Lorscheiter (a troca de uma letra no sobrenome alemão se deve a um erro do escrivão no cartório), d. Aloísio foi detido na sede do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades), no Rio, por agentes do Centro de Operações de Defesa Interna (Codi), numa investigação de supostas atividades subversivas da Juventude Operária Católica (JOC). A detenção durou três horas e meia. Os cardeais d. Jayme de Barros Câmara (Rio), d. Vicente Scherer (Porto Alegre) e d. Eugenio Sales (Salvador) saíram em sua defesa.  Em Fortaleza, onde foi arcebispo durante 18 anos, d. Aloísio sofreu várias ameaças de morte. Em fevereiro de 1987, desconhecidos jogaram uma bomba de fabricação caseira em no terraço interno de sua residência. Ele acordou assustado e, embora os estragos fossem pequenos, decidiu chamar a polícia. Não era o primeiro atentado: no ano anterior, um grupo não identificado matou com veneno sete cães, da raça pastor alemão, que ele tinha no quintal.  Ameaças e atentado se deviam, aparentemente, às posições adotadas pelo cardeal, em defesa da reforma agrária, da causa indígena e dos direitos de presos políticos. No campo pastoral, ele apoiava as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) e o aproveitamento dos padres casados em funções litúrgicas e no trabalho de evangelização - o que não significava uma volta ao ministério sacerdotal que eles haviam abandonado. Defensor da Teologia da Libertação na Conferência de Puebla (México) em fevereiro de 1979, quando era presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), d. Aloísio viajou a Roma em 1984, com o cardeal de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, franciscano como ele, para prestar solidariedade a Leonardo Boff, também franciscano, que foi interrogado e, em seguida, censurado pela Sagrada Congregação de Defesa da Doutrina da Fé. Não conseguiram evitar que Boff fosse condenado ao silêncio obsequioso (não poderia ensinar teologia nem escrever livros sobre questões teológicas), mas deram seu testemunho em defesa do confrade. O presidente da Congregação era o cardeal Joseph Ratzinger, depois Bento XVI, que, em confidência ao próprio Boff, disse ter sido voto vencido na análise de seus livros e artigos.  Em março de 1994, d. Aloísio passou mais de 18 horas como refém numa rebelião de presidiários. Ele fazia uma visita de rotina ao Instituto Penal Paulo Sarasate, em Fortaleza, quando foi dominado por dois detentos enquanto falava num auditório sobre as condições precárias das cadeias. Arrastado para debaixo de uma mesa, sugeriu que fosse o último a ser libertado. Mandou bilhetes às autoridades pedindo que atendessem às exigências dos rebelados e elogiou o então governador Ciro Gomes, por ele ter fornecido as armas solicitadas para a fuga. Ao ser libertado, o cardeal declarou que continuaria defendendo o direito dos presos a um tratamento humano e justo, sem nenhuma mudança na ação da Pastoral Carcerária. A transferência para Aparecida, arquidiocese pequena, onde sua ação pastoral se restringiria à assistência aos romeiros na basílica nacional da Padroeira do Brasil, deveria ser uma espécie de aposentadoria antecipada para d. Aloísio. Os médicos sugeriam que reduzisse o ritmo de trabalho, o que ele acabou não fazendo.  Como arcebispo emérito, foi morar em Porto Alegre, onde poderia cuidar melhor da saúde. Não perdeu, porém, os laços afetivos com Fortaleza e Aparecida, que visitava na medida do possível. Por ter mais de 80 anos, não participou do conclave de 2005, quando Bento XVI foi eleito. Muito doente na época, não conseguiu viajar a São Paulo, em maio, para se encontrar com o papa durante sua visita ao Brasil. Matéria atualziada às 15h10.

Tudo o que sabemos sobre:
Dom Aloísio LorscheiderAparecida

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.