Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

'Mudança climática não é questão de futuro, é questão do presente', diz Paulo Artaxo

Integrante do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas fala sobre a urgência da questão climática

Entrevista com

Paulo Artaxo

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 10h00

Onda de calor recorde no Canadá, incêndios nos Estados Unidos, enchentes na Alemanha. Os eventos extremos registrados nas últimas semanas indicam que o planeta já enfrenta uma emergência climática, segundo o especialista da USP Paulo Artaxo, integrante do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).

No próximo dia 9 de agosto, o painel lança a primeira parte de seu sexto relatório, com a atualização científica sobre o tema, que indicará um agravamento acelerado da situação climática do mundo e uma necessidade cada vez mais urgente da redução das emissões do efeito estufa. A segunda e a terceira parte do documento, que tratam dos efeitos das mudanças climáticas no planeta e as formas de mitigação, serão lançadas no ano que vem. O relatório anterior é de 2014.

Para Artaxo, a próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP26, em dezembro deste ano, em Glasgow, na Escócia, será decisiva para a situação mundial. O especialista acredita que a crescente conscientização de alguns dos países mais ricos do planeta sobre os efeitos da alteração do clima planetário deve trazer resultados mais objetivos do que os alcançados nas conferências anteriores.

“O novo relatório será muito categórico sobre o fato de que estamos observando um agravamento rápido da questão climática global e que é cada vez mais fundamental reduzirmos as emissões”, disse Artaxo, em entrevista ao Estado. “Estamos entrando em uma situação de emergência climática, isso é indiscutível. A mudança climática já está aqui conosco, não é uma questão do futuro, mas do presente.”

Nos últimos dias tivemos ondas de calor nos EUA, no Canadá e na Sibéria. Enchente devastadora na Alemanha. Já estamos vivendo na era dos extremos climáticos?

Sim, esses eventos são extremos climáticos. Mas a pergunta é: podemos atribuir esse aumento da intensidade e da frequência desses eventos às mudanças climáticas? Vários estudos mostram que sim, que tendo mais energia armazenada na atmosfera temos um aumento na frequência e na intensidade dos eventos climáticos extremos, exatamente como estamos observando e como já era previsto pelos modelos climáticos há 10, 15 anos.

E o que podemos dizer da onda de frio no Brasil? No último dia 4, por ocasião de uma outra onda de frio, o senhor afirmou que a entrada de frentes frias vindas da Antártida era comum, mas ressaltou: “Se bater -5ºC em São Paulo e o lago do Ibirapuera congelar, ai eu chamaria de um evento anormal”. Com a entrada de uma nova frente fria esta semana, estão previstas temperaturas negativas em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Podemos dizer que esses eventos extremos estão relacionados às mudanças climáticas?

Não funciona sim ou não nesta resposta. É uma questão de probabilidade. Com o deslocamento da temperatura para valores mais altos, o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos está aumentando, tanto pro lado do calor, quanto do lado do frio. Eventos de geadas intensas, ondas de frio enormes nos EUA, no ano passado, e agora temperatura de 48 graus Celsius, aumento da probabilidade dos eventos climáticos extremos. Mas é uma questão muito complexa e não temos ainda todas as respostas.

Os eventos recentes atingiram países desenvolvidos como nunca antes. O senhor acha que enfrentar os efeitos das alterações climáticas de uma forma tão intensa pode ajudar a aumentar a conscientização do governo desses países. A reação da Alemanha, por exemplo, foi bem taxativa nessa linha.

Não há a menor dúvida. Quarenta e oito graus no Canadá, 42 em Moscou, uma chuva torrencial na Alemanha, incêndios na Califórnia. A população está pressionando os governos a atuar em relação às mudanças climáticas globais, porque percebem que os prejuízos socioeconômicos para a sociedade serão enormes. No dia seguinte da enchente na Alemanha, o ministro do Interior foi muito claro ao dizer que era preciso intensificar a redução das emissões de gases do efeito estufa.

No Brasil de Ricardo Salles e Jair Bolsonaro, do negacionismo científico, o desmatamento da Amazônia só faz aumentar. Um estudo internacional divulgado na semana retrasada mostra que a Amazônia já emite mais CO2 do que absorve. O que mais precisa acontecer para que as autoridades entendam a emergência?

As autoridades em geral não respondem aos anseios e necessidades da população, mas a seus próprios interesses econômicos e políticos. Quem manda é a economia e a política. Se a economia e a política mostrarem que eles vão ter mais prejuízo ao ignorar as mudanças climáticas, surgirão ações mais contundentes. Já estamos começando a ver isso nos Estados Unidos com (o presidente Joe) Biden, nos países europeus e também na China, que hoje é um dos grandes vetores de políticas de contenção de emissões. Então, na verdade, isso pode sinalizar uma mudança radical na visão dos países desenvolvidos em relação às políticas de redução de emissões. Enquanto as enchentes estavam acontecendo em Bangladesh, na Índia ou em Petrópolis, os países desenvolvidos não estavam nem ai. Mas agora a coisa está mudando.

Havia uma expectativa de que as pressões internacionais fossem capazes de deter o crescente desmatamento da Amazônia, sob o governo Bolsonaro. Isso não ocorreu?

Essa é uma interpretação. Uma outra interpretação é que as forças políticas, num congresso dominado por ruralistas, são mais fortes que as pressões internacionais. Obviamente as sanções tendem a aumentar, como o boicote de produtos provenientes de atividades relacionadas ao desmatamento.

O que podemos esperar do novo relatório do IPCC, o primeiro em sete anos, a ser lançado no próximo dia 9?

O relatório está embargado, então não posso adiantar nenhuma conclusão. Mas posso dizer que ele será muito categórico na observação do agravamento rápido da questão climática global, e que cada vez é mais fundamental reduzirmos as emissões. Estamos entrando numa situação de emergência climática, isso é indiscutível.

O que implica uma “emergência climática”?

Que estamos atingindo um ponto de não retorno, que pode ser realmente perigoso para a estrutura socioeconômica construída ao longo dos últimos séculos termos uma ruptura do sistema climático. Os eventos extremos estão ai. O aumento do nível do mar vai impactar as cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro. A mudança climática está aqui conosco, não é mais uma questão de futuro, mas de presente.

Há pelo menos dez anos, as reuniões sobre mudanças climáticas tentam sem sucesso estabelecer metas de redução para que o aumento médio da temperatura global não ultrapassasse um grau e meio, dois graus, três graus. Que cenário desses já podemos dizer que ficou para trás?

O aquecimento médio já é de 1,2 grau Celsius, sendo que chega a 1,8 grau Celsius nas áreas continentais. Em algumas regiões, como no nordeste brasileiro e no leste da Amazônia, esse aumento já ultrapassou os dois graus. Um dos objetivos do Acordo de Paris (firmado em 2015 por 193 países, o documento estabelece reduções voluntárias de gases de efeito estufa) era limitar o aumento a 1,5 grau Celsius. Isso já foi ultrapassado nas áreas continentais do planeta. Isso demonstra que já entramos numa fase de emergência climática, em que ou as autoridades agem agora para reduzir as emissões ou os prejuízos socioeconômicos para gerações futuras e também presentes serão enormes, insuportáveis. É melhor agir agora.

Reduzir as emissões para limitar o aumento das temperaturas é a única forma? A humanidade não pode se adaptar à elevação da temperatura média do planeta?

Reduzir as emissões é a única forma de garantir que os danos à estrutura socioeconômica do planeta possa ser minimizado. Se permitirmos que o planeta atinja um aquecimento global de três ou quatro graus Celsius, como já demonstraram alguns cenários traçados pelo IPCC, produzir alimentos no Cerrado, por exemplo, será uma tarefa extremamente difícil. Então precisamos parar o desmatamento da Amazônia, parar de queimar combustíveis fósseis e reduzir as emissões. Adaptação, obviamente, sempre é possível. Mas a um custo muito grande. No caso brasileiro, a floresta amazônica processa o vapor d’água que alimenta o agronegócio no Brasil central. Se o desmatamento avançar, será impossível plantar soja e criar gado ali. É esse o futuro que queremos? Um País inviável com as mudanças climáticas?

Diante desse cenário, o que podemos esperar da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 26? Há mais de dez anos se espera um acordo eficiente na redução dos gases de efeito estufa....

Provavelmente esta será a COP mais importante até o momento. Primeiro por conta da entrada forte dos Estados Unidos na política climática global. Com o agravamento dos eventos climáticos extremos parece que ‘caiu a ficha’ dos países desenvolvidos de que precisamos, realmente, reduzir emissões. Isso vai refletir na COP, onde as reduções voluntárias podem se tornar obrigatória, que as reduções voluntárias comprometidas no Acordo de Paris sejam levadas a sério. A segunda questão é sobre os mecanismos financeiros de ajuda aos países em desenvolvimento. Essa ajuda não se tornou realidade até o momento, apesar de ser discutida há dez anos. Acho que será um ponto central da COP porque sem isso não tem mecanismo para conseguir reduzir emissões. Obviamente tudo isso depende de uma questão política, não científica. A ciência já fez o seu trabalho. Agora é com a sociedade e com os políticos, com os negociadores climáticos. A ciência fez um bom trabalho ao mostrar como o nosso futuro será comprometido pela falta de ação política de nossos governantes.

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