Na Etiópia, doentes ortodoxos recorrem à 'água sagrada'

População da região mais alta da capital Adis-Abeba só procura centros médicos em casos extremos

Antonio Jaén Osuna, Efe

16 de maio de 2008 | 15h19

A "água sagrada" que corre no ponto mais alto de Adis-Abeba, próximo à Igreja ortodoxa de Santa Maria, é o método mais usado pelos doentes da região, que só em último caso se dirigem aos centros médicos. No monte Entoto, mais de mil infectados com Aids vivem com a esperança de que suas doenças desapareçam pelo efeito milagroso da água, que só os sacerdotes autorizados podem manipular.   Salalem Desalem, que é soropositivo e presidente desta comunidade há quatro anos, disse que "a princípio, eram cerca de 3 mil os que formavam o que depois se transformaria em uma associação, mas o tempo e a doença" reduziu o grupo a um terço do que era.   Mesmo assim, sua fé predomina e estão convencidos de que não necessitam de nenhum tratamento médico para combater a Aids além da "água sagrada" que é oferecida pela igreja.   "Quando cheguei a este lugar há quatro anos quase não conseguia andar, tinha que me sujeitar a usar um bastão", falou Salalem, enquanto caminhava vigorosamente em direção ao lugar onde se encontra a água sagrada. "Agora me encontro cheio de saúde e força. Não me fazem falta médicos. Permanecerei aqui até que seja a vontade de Deus".   Como Salalem, são muitos os que se deslocam para a Igreja de Santa Maria e renunciam a todo tipo de intervenção facultativa, por medo de que os efeitos da "água sagrada" desapareçam.   Embora o arcebispo Abuna Paulos, patriarca da comunidade ortodoxa, reforce que a medicina tanto como a "água sagrada" são válidas "já que ambos são caminhos de Deus", muitos sacerdotes consideram uma falta de fé recorrer à medicina.   Os funcionários do hospital Saint Peter, a vários quilômetros da fonte de onde os sacerdotes extraem a água milagrosa, conhecem bem esta situação. Por este motivo, de poucos em poucos meses, vão à Igreja de Santa Maria para informar aos muitos infectados de Aids e de tuberculose sobre suas possibilidades de tratamento no centro.   O hospital conta com a ajuda do Global Fund, criado em 2002, com o apoio da ONU e do G8 - grupo dos oito países mais desenvolvidos - para lutar contra a malária, a tuberculose e a Aids. Graças a sua cooperação, os remédios normalmente inacessíveis para a maioria dos afetados, são distribuídos gratuitamente.   Amara Toruna, que é um dos pacientes do hospital Saint Peter, há seis anos - com 31 anos de idade - soube que tinha Aids e, após passar vários anos perto da fonte de água sagrada, começou a se sentir muito fraco, e então decidiu ir ao hospital, onde diagnosticaram, além disso, tuberculose.   "Estava em uma situação crítica quando cheguei", narrou sorrindo, e "comecei a tomar os remédios e depois de alguns dias já me sentia muito melhor. Só alguém que passou por esta doença e sofreu suas conseqüências, sabe os benefícios de um tratamento como este".   Contrariamente ao que costuma ocorrer no Ocidente onde, quando a medicina falha, milagres são procurados como último recurso, para muitos cristãos ortodoxos da Etiópia é quando a fé falha que o milagre da medicina é requisitado, e só se dirige a ela como último remédio.

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