Na mata, armadilha para animais e susto para cientistas

Enquanto a maioria das pessoas torce para não cruzar com uma cobra no caminho, o herpetólogo Jucivaldo Dias Lima passa o dia cutucando tocas e revirando troncos na esperança de encontrar alguma cochilando sob a vegetação. Quando não encontra nada, lamenta. Chove muito pouco nos primeiros dias da expedição, e a mata seca é desfavorável à captura de répteis e anfíbios, sua especialidade. Muitas vezes, ele passa dia e noite na mata coletando. E se precisar dormir no chão da selva, também não se incomoda. Diante de cobras, aranhas e escorpiões, demonstra tamanha tranqüilidade que chega a ser mais assustador do que os próprios bichos. Também pudera: em 13 anos de pesquisa de campo, já foi picado e aferroado tantas vezes que já se acostumou. "Só tem um bicho que me mete medo: centopéia. Não sei porque; deve ser trauma de infância."O único aparato de segurança que leva para a mata é um par de botas de borracha. Quando revira um tronco e vê alguma coisa rastejando, enfia a mão na terra sem pensar duas vezes. Nos primeiros dias da expedição, cruzou com uma jibóia de quase 2 metros e não teve dúvidas: pegou o bicho na mão e enfiou dentro da mochila. "Quando comecei andava com um gancho, depois passei para uma forquilha e agora vai com a mão mesmo", brinca Jucivaldo.Entre as capturas mais interessantes estão um lagarto com patinhas minúsculas, mais parecido com uma cobra, e um sapinho gorducho que canta debaixo da terra e pode ser uma espécie nova. "Nunca ouvi um canto igual ao dele", diz. Além das coletas manuais, o pesquisador inspeciona diariamente algumas dezenas de baldes enterrados no chão da floresta para servir de armadilhas. Uma idéia simples, porém eficiente: os bichos caem lá e não conseguem sair depois. Muitos sapos e lagartos menores, que vivem sob a folhagem, são pegos dessa maneira.Mamíferos - Para fazer o inventário de mamíferos, a pesquisadora Cláudia Regina Silva precisa recorrer a uma série de artimanhas. Uma delas está na isca usada para atrair pequenos roedores e marsupiais para dentro das armadilhas: pasta de amendoim misturada com sardinha em lata, servida sobre uma rodela de calabresa ou batata. "É oleoso e tem um cheiro forte", diz. A mistura é colocada dentro de arapucas metálicas, que se fecham quando o bicho entra para comer.Poucos, entretanto, caem na armadilha, apesar da isca apetitosa. Os pequenos mamíferos são os animais mais difíceis de se coletar, com taxas de captura que não chegam a 10% na Amazônia. "A floresta é muito grande e a distribuição é rara, além de haver muito alimento disponível", explica Cláudia. Com 150 armadilhas, ela conseguiu capturar 13 exemplares de seis espécies.Animais maiores, como felinos, antas e veados, são registrados por observação direta ou por meio de armadilhas fotográficas, que disparam quando alguma coisa se movimenta perto delas. As máquinas são deixadas em ponto estratégicos, como a borda de bebedouros e debaixo de árvores frutíferas, onde os bichos vêm para matar a sede e se alimentar. No caso de espécies muito conhecidas, pegadas e outros vestígios também são aceitos como registro científico.Somadas todas as alternativas, Cláudia concluiu a expedição com uma lista de 34 espécies, incluindo a ariranha e a onça-pintada, ambas ameaçadas de extinção. Quem se sentiu mais ameaçada na expedição, entretanto, foi a bióloga Ana Carolina Martins. Duas noites depois de levar o bote de uma jararaca e ser salva pela perneira (uma proteção de couro usada em torno da canela), ela se viu de frente com uma onça no meio de um açaizal, quando inspecionava uma das redes usadas para captura de morcegos. Com a lanterna, pôde ver os olhos do felino fixos nela e em seu assistente, a 12 metros de distância. Os pesquisadores subiram em uma açaizeiro e começaram a bater com o facão no caule para afastar o bicho, mas não adiantou. "Ficamos presos nessa situação quase duas horas, até que resolvemos fazer fogo. Só o clarão e a fumaça conseguiu afastá-la um pouco mais", contou Ana. "Passamos a noite toda com uma fogueira esperando clarear para ir embora. Foi a noite de coleta mais difícil que já passei." O registro da onça, pelo menos, estava garantido.

Agencia Estado,

29 de janeiro de 2005 | 12h14

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