Na ‘Veneza de Marajó’, falta médico e sobra açaí

Em São Sebastião da Boa Vista não há água tratada e no posto de saúde só há 1 médico para os 22 mil habitantes

Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

18 Agosto 2012 | 18h50

SÃO SEBASTIÃO DA BOA VISTA (PA) - Aos 96 anos, Iracema Nahum distribui convites para um café a quem passa pela sua porta em São Sebastião da Boa Vista. A casa de madeira, comum na cidade, é convidativa. Quase sem móveis, apenas com redes para dormir, é fresca e um abrigo valioso contra o sol forte da rua.

Iracema diz que viu muitas mudanças nas últimas décadas por ali. Estudou até a 2.ª série, mas seus 11 filhos foram mais longe e são professores, advogados e vereadores. "Minha mãe era pobre, meu pai pobre era. Mas trabalho não é desprezo", diz ela, que fez de tudo para viver.

O filho Humberto, de 50 anos, colhe o açaí no quintal, também comum nas casas. "Aqui consigo quase 10 litros, é só para nós", diz ele, que instala antenas de TV da Sky. Como em praticamente todo o Pará, o açaí é presença forte no cardápio.

Dificuldades

Mas nem tudo é açaí. Sem água tratada, é preciso fazer um longo processo de filtragem. O posto de saúde tem apenas 1 médico para os 22 mil habitantes da cidade e são poucas as opções de exames. "Temos consultório odontológico, mas a cadeira quebrou e está sem material", diz Elma Campos, uma das três enfermeiras.

A pesca é importante, mas a pujança comercial se dá na feira de rua, que vende de tudo, de carne a galinha fresca, CDs e roupas. Nas ruas, a bicicleta tem perdido espaço para as motos e só há quatro carros. Os barcos ainda são os campeões - o trânsito nas águas é intenso entre vilas e cidades.

À noite, o agito é na praça. De um palco na rua, o som é o tecnobrega, típico dali - e a um volume absurdo. No tablado, a faixa lembra onde você está: São Sebastião da Boa Vista, a Veneza de Marajó.

 

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