Nas janelas de NY, morte para pássaros migratórios

Não é o mais antigo dos problemas de meio ambiente, mas talvez esteja entre os mais habituais: quem ainda não se assustou com uma súbita batida e voltou-se para ver um passarinho ? morto ou atordoado ? do outro lado dos vidros da janela? ?Todos os anos, um imenso número de pássaros é morto ou ferido pela colisão com janelas?, diz E.J. McAdams, diretor executivo da New York City Audubon Society.O grupo está montando uma campanha, Project Safe Flight, para procurar soluções para o problema. As propostas incluem escurecer os prédios à noite e encorajar o uso de novos tipos de vidro.?O problema piora muito durante a estação de migração, quando a maioria dos pássaros voa à noite, navegando pela lua e estrelas, a cerca de 150 a 600 metros de altura?, diz McAdams. ?Especialmente quando o céu está encoberto ou faz mau tempo, eles podem se confundir com a luz da cidade e não perceber que uma janela de vidro é realmente uma barreira sólida.?Durante o dia, ele acrescenta, os pássaros podem ser iludidos pelo reflexo do céu ou árvores nos vidros, ou pelas plantas decorativas dentro do lobby de um prédio.O Project Safe Flight também envolve uma pesquisa anual, agora em sua sétima versão, das mortes de pássaros provocadas por fachadas de prédios e lojas da cidade de Nova York. Em 2003, houve perdas recordes de cerca de 3.000 pássaros de 97 espécies diferentes, cerca da metade nas redondezas do Central Park.Pardais de coleira branca, entre as espécies mais comuns da cidade, lideram a lista de 2003, com 423 mortos e 181 feridos, seguidos pelos também comuns toutinegra americana, com 208 mortos e 147 feridos; joão-de-barro, 163 mortos e 77 feridos; e pintassilgos de olho preto, 104 mortos e 50 feridos.A despeito da proximidade de Nova York da água, não há pássaros marinhos na lista, e apenas um predador, um falcão, foi registrado nos seis anos anteriores da pesquisa, de abril de 1997 a maio de 2003. O pombo, de longe o pássaro mais abundante em qualquer cidade, entrou com apenas três mortos e dois feridos.O Project Safe Flight inicialmente focava-se nas torres gêmeas do World Trade Center, uma muralha de vidro no caminho dos pássaros migratórios, que permanecia com seus 335 metros de altura parcialmente iluminados para as equipes de limpeza. Mas as torres foram destruídas nos ataques de 11 de setembro de 2001.Por um tempo, o Empire State Building desligou as luzes durante as migrações de pássaros, mas parou com essa prática depois dos atentados. ?Ficar iluminada tornou-se um fator moral para a cidade e não queremos discordar disso?, diz McAdams.Chicago e Toronto são outras cidades que estudam o fenômeno da colisão de pássaros. Desligar as luzes decorativas do Loop de Chicago, durante a estação migratória, deve ter salvo, segundo estimativas, a vida de cerca de 10.000 pássaros por ano.Jon McMillan, o arquiteto responsável por um novo complexo de torres no bairro de Queens, diante do prédio das Nações Unidas do outro lado do East River, confessa que começou a preocupar-se com os pássaros depois de ver a lista de mortes publicadas pela Audubon.?Nós vamos evitar grandes extensões de vidro perto do solo e deixar nossos edifícios iluminados até tarde da noite?, ele diz. Bruce Fowle, da empresa de arquitetura Fox & Fowle, explica que o reconhecimento do problema é tão recente que não foi considerado quando sua companhia construiu o avançadíssimo edifício da Conde Nast, em Times Square, no final dos anos 90.Mas tornou-se, agora, um ?tema da maior importância?, atraindo o interesse sério de arquitetos e construtores, segundo Fowle, cuja mulher é ex-diretora executiva da sociedade Audubon de Nova York. ?Estudos recentes chamaram nossa atenção e estamos tentando ajudar?, assegura.Edifícios isolados são ameaça maior para os pássaros do que agrupamentos densos de prédios, como Times Square, diz Fowle. E vidro elaborado para deter pássaros pode ser mais eficaz que desligar as luzes.?Você não fará as pessoas irem para casa às 17 horas apenas porque os pássaros estão vindo?, diz.

Agencia Estado,

21 de junho de 2004 | 14h33

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