Johns Hopkins/NASA, Steve Gribben/APL
Johns Hopkins/NASA, Steve Gribben/APL

Nasa lança missão para desviar rota de asteroide e treinar estratégia para defender o planeta

Corpo celeste não representa ameaça para a Terra, mas agência americana quer saber se temos tecnologia para proteger a humanidade de ameaças futuras

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2021 | 11h57

A Nasa, agência espacial americana, inicia nesta quarta-feira, 24, uma missão que lembra até filme de Hollywood. O teste de redirecionamento de asteroide duplo (em tradução livre), ou simplesmente missão Dart,  vai tentar pela primeira vez desviar a rota de um asteroide, com o objetivo de proteger a Terra de ameaças futuras. Este corpo celeste não é um perigo agora, mas a ideia é checar se a tecnologia que já temos é suficiente para proteger o planeta de um possível risco semelhante. 

O lançamento da sonda espacial, a bordo do foguete Falcon 9 da SpaceX, na base da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia (EUA), está previsto para a madrugada de quarta-feira, 24. Poderá também ser assistido pelo canal da Nasa na internet. 

Segundo a agência americana, nenhum asteroide conhecido representa uma ameaça à Terra - pelo menos até o próximo século. A missão Dart funciona como um teste-chave antes de qualquer ameaça real, para coletar dados sobre a possibilidade de deflexão de um asteroide por meio de uma técnica chamada de impacto cinético. 

A sonda da Dart ruma até um sistema binário. Com uma velocidade de seis quilômetros por segundo, de forma autônoma, a nave deve colidir deliberadamente com o Dimorphos, um asteroide de 160 metros de diâmetro, que orbita outro maior, o Didymos, com 780 metros de diâmetro.

Pela proximidade com a Terra, o sistema Didymos permite que especialistas em defesa planetária observem e meçam o impacto cinético da sonda. Com a colisão, os cientistas estimam reduzir em vários minutos o período orbital do Dimorphos.  A escolha da data de colisão, que deve ocorrer entre outubro e novembro do próximo ano, foi proposital. A cada 770 dias, o Didymos fica a 11 milhões de quilômetros do planeta. 

Conforme o jornal britânico The Guardian, em 2024, a nave Hera, da agência espacial da Europa (ESA), vai visitar o sistema Didymos e permitirá uma análise mais detalhada da colisão. Com informações mais específicas sobre o Dimorphos, como massa precisa e estrutura interna, e da cratera deixada pela Dart, pode ser possível tornar o impacto cinético uma técnica repetível.

O Dimorphos não representa necessariamente um perigo para a Terra. Mas foi escolhido por membros de uma equipe de elite da Nasa conhecida como Gabinete de Coordenação de Defesa Planetária, cuja tarefa não é explorar o espaço, mas sim defender a Terra. Essa missão, segundo a Nasa, é fundamental para a estratégia de defesa planetária da Nasa, que estuda, analisa e mede todos os asteroides próximos à Terra e suas trajetórias para entender e reduzir o perigo de um possível impacto.

“É um primeiro teste de defesa planetária”, diz Thomas Zurbuchen, integrante da diretoria da missão científica da Nasa. “O que estamos tentando aprender é como desviar uma ameaça. Existem muitas rochas voando pelo espaço. A Nasa faz o possível para rastreá-las, mas estima que só conhece cerca de 40% dos asteroides que podem representar perigo. Estamos trabalhando para adicionar mais rochas espaciais ao nosso catálogo e, enquanto isso, tentando descobrir como garantir que nenhuma atinja a Terra.”

Com informações mais específicas sobre o Dimorphos, como massa e estrutura interna, e da cratera deixada pela Dart, será possível tornar o impacto cinético em uma técnica replicável. Assim, em caso da aproximação de um asteroide que realmente possa causar danos ao planeta, os cientistas estarão prontos para contorná-lo.

“A colisão de um corpo com a Terra não é uma hipótese vaga, vai acontecer e já aconteceu antes”, afirma o doutor em Astronomia Roberto Costa, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “É uma questão de desenvolver tecnologia, validar os parâmetros de velocidade, massa e direção. Vai ser muito importante ter esses dados no futuro.”

Para se ter ideia da dimensão do problema, a última vez que um objeto colidiu com o planeta causando estragos foi em 2013, na cidade russa de Chelyabinsk. Um asteroide de 18 metros de diâmetro não detectado entrou na atmosfera da Terra, explodiu e gerou uma onda de choque que atingiu seis municípios. A explosão feriu mais de 1.600 pessoas e causou danos estimados em US$ 30 milhões.

No entanto, os impactos de asteroides são “comuns” em toda a história da Terra, de acordo com Costa. “Todos os dias, objetos caem na atmosfera do planeta e isso é normal”, diz. Essas colisões ocorrem com frequência, pois, assim como outros asteroides, a Terra orbita o Sol. Quando a órbita de um objeto e a do planeta se cruzam no mesmo ponto e tempo, há o choque.

É claro que colisões com magnitudes retratadas em histórias de ficção científica não são tão frequentes. “Normalmente são (corpos) muito pequenos, que queimam (antes de chegar ao solo) na atmosfera”, destaca Costa. Essa “queima” cria um efeito luminoso, popularmente conhecido como estrela cadente.

A queda de um asteroide passa, de fato, a preocupar quando esse tem mais de 100 metros de diâmetro. Isso porque há mais chances de que ele não se desintegre no trajeto de descida entre a atmosfera e a Terra. Segundo a Nasa, a entrada de um objeto dessa dimensão no planeta ocorre uma vez a cada 20 mil anos.

“Quanto maior for o tamanho do objeto, menor será a frequência que ele cairá na Terra”, explica o doutor em Física e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Alexandre Zabot. É por isso que ele avalia que corpos com 100 metros de diâmetro são mais preocupantes, por exemplo, do que aqueles com 10 quilômetros – como o responsável por extinguir os dinossauros há 66 milhões de anos. Então, ter uma técnica de desvio replicável em mão poderá evitará danos localizados, não globais.

“Asteroides entre 150 e 500 metros de diâmetro também são a grande preocupação, porque, apesar de serem grandes suficientes para causar um estrago, não são grandes suficientes para os detectarmos com muita antecedência”, afirma Zabot.

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