NASA/Reuters
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Voos comerciais abrem caminho para Nasa mirar 'espaço profundo'

Uma reorientação das operações da Nasa foi antecipada, acelerada pelo sucesso da SpaceX, que vem transportando carga e suprimentos para a estação espacial há anos

Christian Davenport, The Washington Post

27 de setembro de 2021 | 10h02

Com a SpaceX agora responsável por transportar cargas e astronautas para a Estação Espacial Internacional, a Nasa está se reorganizando para colocar uma nova ênfase no espaço profundo, incluindo a criação de uma nova diretoria para desenvolver tecnologias necessárias para alcançar o que seria uma das mais ambiciosas missões que a Nasa já tentou, incluindo a construção de uma base permanente na Lua e, eventualmente, em Marte.

Em uma entrevista para o Washington Post, o administrador da Nasa, Bill Nelson, disse que a nova diretoria, conhecida como Exploration Systems Development, vai supervisionar o desenvolvimento de novas ferramentas, de habitats a rovers e sistemas de propulsão, ajudando a Nasa a abrir novas fronteiras.

O sucesso da parceria entre a agência e um setor espacial comercial em crescimento faz com que "a Nasa possa sair da órbita baixa da Terra e comece a explorar", Nelson disse.

A Nasa deve anunciar a criação de uma nova diretoria na reunião do meio-dia na prefeitura com funcionários da agência. Jim Free, um ex-administrador associado da Nasa comandará a nova diretoria. Kathy Lueders, que conduz a atual Human Exploration and Operations Mission Directorate, comandará uma segunda nova diretoria, que será chamada de Space Operations. Ela irá supervisionar os programas assim que estejam desenvolvidos, bem como a estação espacial, a comercialização da órbita baixa da Terra, e nos próximos anos, as operações na Lua, disse a Nasa em um comunicado.

Uma reorientação das operações da Nasa foi antecipada, acelerada pelo sucesso da SpaceX, que vem transportando carga e suprimentos para a estação espacial há anos. No ano passado, a SpaceX realizou a primeira missão de astronautas da Nasa para a estação espacial, demonstrando que a Nasa não era mais a única capaz de levar os astronautas para a órbita baixa da Terra. Essa realidade foi consolidada na semana passada, quando a SpaceX, um empreendimento fundado por Elon Musk, levou, com sucesso, quatro civis em uma missão de três dias orbitando a Terra sem nenhum envolvimento da Nasa.

Além da SpaceX, a Northrop Grumman transporta carga para a estação. E a Boeing está sob contrato para transportar astronautas para lá, embora tenha falhado muito no desenvolvimento de sua espaçonave Starliner e está anos atrasada em seu cronograma.

O fato de depender de empresas comerciais para empreendimentos na Terra baixa libera a Nasa para dar mais atenção a missões mais ambiciosas.

"Se você olhar para as próximas duas décadas, o que temos é uma série de programas", Pam Melroy, vice-administradora da Nasa, disse em uma entrevista. "Estamos falando de habitats, sistemas de transporte como rovers. Estamos falando de infraestrutura como energia, comunicações, extração de recursos… O escopo do que estamos levando adiante é muito diferente daquilo que fizemos no passado."

Nelson disse que as mudanças foram feitas porque o empreendimento, de transportar astronautas para a estação especial, ao programa Artemis para levar astronautas para a Lua e, eventualmente, para Marte, "ficou muito grande. Uma pessoa não pode fazer tudo."

Free disse que as duas diretorias trabalharão juntas, mas que ele estará olhando para as missões futuras e aproveitando a tecnologia que faria com que acontecessem, de novas formas de propulsão a fabricação e mineração no espaço.

Mas primeiro a agência precisa estar focada em fazer com que humanos voltem à Lua pelo programa Artemis, disse Free durante a reunião.

"Esse é nosso foco, nossa responsabilidade", ele disse.

"Há muita tecnologia nova que precisa ser desenvolvida para a Lua e para Marte, assim como cultivar as parcerias internacionais que estarão conosco", disse Nelson.

É improvável que a mudança seja aceita com entusiasmo por todos, especialmente em um negócio no qual os erros podem ser fatais. Os críticos provavelmente dirão que o movimento cria outro nível de burocracia, exigindo um orçamento separado e novos canais com os legisladores, líderes do setor e parceiros internacionais, assim como um potencial para competição entre as duas diretorias.

Nelson disse que as mudanças não são uma diminuição das responsabilidades de Lueders, mas "um aumento do sucesso tremendo que ela já conseguiu".

Lueders supervisionou o contrato para construir uma espaçonave capaz de pousar astronautas na Lua que a Nasa concedeu à SpaceX no início deste ano. A Blue Origin, de Jeff Bezos, que ofereceu US $6 bilhões ou o dobro da SpaceX e perdeu o contrato, alegou que a aquisição tinha falhas graves. Ela protestou contra a decisão junto ao Escritório de Prestação de Contas do Governo, perdeu, e desde então entrou com uma ação no Tribunal de Reclamações Federais. (Bezos é proprietário do Post.)

O litígio forçou a Nasa a interromper o trabalho no contrato.

Na prefeitura, ela disse que estava ansiosa para trabalhar com Free. "Nem posso dizer como estou entusiasmada em ter um parceiro aqui", ela disse. "Continuo pensando que duas cabeças são melhores que uma e que isso será muito divertido."

O programa lunar Artemis já teve diversos atrasos e o transporte de astronautas para a superfície até 2024, o objetivo da Nasa, é pouco provável de acontecer. Mas Nelson disse que a primeira missão do programa, conhecida como Artemis I, está próxima de lançar a espaçonave Orion, sem astronautas a bordo, que orbitaria a Lua no final deste ano ou no início do ano que vem. A missão seria o primeiro voo do enorme Space Launch System da Nasa, que também sofreu anos de atrasos.

O segundo voo, Artemis II, seria uma missão com tripulação ao redor da Lua no final de 2023, ou no começo de 2024, ele disse. Mas ele estava menos confiante sobre o cronograma para pousar os astronautas na superfície.

"É claro que houve atrasos", Nelson disse. "Estamos no meio de uma briga jurídica agora. E quem sabe o que vai acontecer após o juiz federal decidir. Ainda estou mantendo 2024 como uma meta? Sim. Ah, mas também sou realista para saber que há muitas coisas que fogem de nosso controle." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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