Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Nascimento da doença

Antes, todas as manifestações do envelhecimento eram tidas como consequências naturais

O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 08h23

O objetivo da medicina é compreender, prevenir e curar doenças. Mas como nascem as doenças? Em muitos casos, como a aids, elas simplesmente aparecem e são imediatamente identificadas como uma nova doença. Em outros casos, como a depressão – antes chamada de melancolia –, elas foram identificadas há milhares de anos e somente mudaram de forma e nome à medida que foram melhor compreendidas.

Mas há uma terceira maneira de uma doença nascer: algo considerado normal passa a ser considerado uma nova doença. E isso é importante, pois o reconhecimento de algo como uma doença é o primeiro passo para que as engrenagens da medicina comecem a se movimentar para definir métodos de diagnóstico, prevenção e cura.

Aqui vai a história do nascimento de uma nova doença, a sarcopenia, que nasceu na cidade de Albuquerque, no Novo México (EUA), em 1988. O envelhecimento deve ter sido a segunda preocupação de Adão imediatamente após ter descoberto o prazer propiciado pelo pecado. Recentemente, a fração de idosos passou a aumentar exponencialmente. Em 2000, 71 milhões de pessoas tinham mais de 80 anos – esse número será de 202 milhões em 2030 e dobrará para 434 milhões até 2050.

No último século, o que chamávamos de envelhecimento começou a ser melhor entendido. Antes, todas as suas manifestações eram consideradas consequências naturais da passagem dos anos e do desgaste do corpo. Dificuldades de visão, coração fraco, rins pouco eficientes, dificuldade de respirar e de se locomover, ossos frágeis, memória falha e muitos outros sinais dos tempos eram considerados parte do processo natural de maturação do corpo.

Não eram doenças, eram parte de nossa história natural, tal como aprender a andar faz parte do desenvolvimento. Mas isso mudou. Agora a dificuldade de visão se chama presbiopia, é compreendida e pode ser corrigida por um par de óculos. Coração fraco virou insuficiência cardíaca e agora é tratado e evitado.

Surgiram doenças novas como a insuficiência renal e respiratória. Ossos fracos agora são uma doença chamada osteopenia, e as falhas mentais são causadas por diferentes doenças, como o Alzheimer ou a demência senil. O envelhecimento, que era visto como um processo natural, passou a ser percebido, pelo menos em parte, como uma série de doenças que podem se prevenidas e tratadas.

Pois bem, em 1988, quando convidado a assistir um congresso sobre a saúde dos idosos em Albuquerque, Irwin Rosenberg notou que uma das características mais frequentes nas pessoas idosas – a fraqueza muscular e a dificuldade de se locomover – ainda era tratada como um processo natural do corpo humano.

Ponderou que a diminuição da massa muscular talvez devesse ser tratada como um processo patológico que poderia ser estudado, prevenido e curado. Tentando identificar o que faltava para que a fraqueza muscular dos idosos fosse encampada pela medicina, decidiu que estava faltando um nome pomposo derivado do grego.

E, quando publicou suas notas sobre o congresso, sugeriu dois nomes para a nova doença: sarcomalacia e sarcopenia. Sarcopenia pegou e a nova doença nasceu. Imediatamente centenas de cientistas passaram a se dedicar ao seu estudo e agora, 30 anos depois, ela é aceita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Critérios de diagnóstico estão se firmando, métodos para evitar seu aparecimento já foram comprovados, e alguns medicamentos estão em fase de testes.

O interessante nessa história é como, aos poucos, um processo complexo como o envelhecimento vai sendo destrinchado, separando o que é inevitável do que pode ser tratado. Muitas vezes, o simples ato de dividir, classificar e nomear os diferentes componentes de um processo é suficiente para desencadear novas maneiras de entender realidades complexas.

]]]

MAIS INFORMAÇÕES: LIFTING THE BURDEN OF OLD AGE, NATURE, VOL. 355, PÁG. 815 (2018)

Antes, todas as manifestações do envelhecimento eram tidas como consequências naturais

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.