Nascimento da doença

Antes, todas as manifestações do envelhecimento eram tidas como consequências naturais

O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 08h23

O objetivo da medicina é compreender, prevenir e curar doenças. Mas como nascem as doenças? Em muitos casos, como a aids, elas simplesmente aparecem e são imediatamente identificadas como uma nova doença. Em outros casos, como a depressão – antes chamada de melancolia –, elas foram identificadas há milhares de anos e somente mudaram de forma e nome à medida que foram melhor compreendidas.

Mas há uma terceira maneira de uma doença nascer: algo considerado normal passa a ser considerado uma nova doença. E isso é importante, pois o reconhecimento de algo como uma doença é o primeiro passo para que as engrenagens da medicina comecem a se movimentar para definir métodos de diagnóstico, prevenção e cura.

Aqui vai a história do nascimento de uma nova doença, a sarcopenia, que nasceu na cidade de Albuquerque, no Novo México (EUA), em 1988. O envelhecimento deve ter sido a segunda preocupação de Adão imediatamente após ter descoberto o prazer propiciado pelo pecado. Recentemente, a fração de idosos passou a aumentar exponencialmente. Em 2000, 71 milhões de pessoas tinham mais de 80 anos – esse número será de 202 milhões em 2030 e dobrará para 434 milhões até 2050.

No último século, o que chamávamos de envelhecimento começou a ser melhor entendido. Antes, todas as suas manifestações eram consideradas consequências naturais da passagem dos anos e do desgaste do corpo. Dificuldades de visão, coração fraco, rins pouco eficientes, dificuldade de respirar e de se locomover, ossos frágeis, memória falha e muitos outros sinais dos tempos eram considerados parte do processo natural de maturação do corpo.

Não eram doenças, eram parte de nossa história natural, tal como aprender a andar faz parte do desenvolvimento. Mas isso mudou. Agora a dificuldade de visão se chama presbiopia, é compreendida e pode ser corrigida por um par de óculos. Coração fraco virou insuficiência cardíaca e agora é tratado e evitado.

Surgiram doenças novas como a insuficiência renal e respiratória. Ossos fracos agora são uma doença chamada osteopenia, e as falhas mentais são causadas por diferentes doenças, como o Alzheimer ou a demência senil. O envelhecimento, que era visto como um processo natural, passou a ser percebido, pelo menos em parte, como uma série de doenças que podem se prevenidas e tratadas.

Pois bem, em 1988, quando convidado a assistir um congresso sobre a saúde dos idosos em Albuquerque, Irwin Rosenberg notou que uma das características mais frequentes nas pessoas idosas – a fraqueza muscular e a dificuldade de se locomover – ainda era tratada como um processo natural do corpo humano.

Ponderou que a diminuição da massa muscular talvez devesse ser tratada como um processo patológico que poderia ser estudado, prevenido e curado. Tentando identificar o que faltava para que a fraqueza muscular dos idosos fosse encampada pela medicina, decidiu que estava faltando um nome pomposo derivado do grego.

E, quando publicou suas notas sobre o congresso, sugeriu dois nomes para a nova doença: sarcomalacia e sarcopenia. Sarcopenia pegou e a nova doença nasceu. Imediatamente centenas de cientistas passaram a se dedicar ao seu estudo e agora, 30 anos depois, ela é aceita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Critérios de diagnóstico estão se firmando, métodos para evitar seu aparecimento já foram comprovados, e alguns medicamentos estão em fase de testes.

O interessante nessa história é como, aos poucos, um processo complexo como o envelhecimento vai sendo destrinchado, separando o que é inevitável do que pode ser tratado. Muitas vezes, o simples ato de dividir, classificar e nomear os diferentes componentes de um processo é suficiente para desencadear novas maneiras de entender realidades complexas.

]]]

MAIS INFORMAÇÕES: LIFTING THE BURDEN OF OLD AGE, NATURE, VOL. 355, PÁG. 815 (2018)

Antes, todas as manifestações do envelhecimento eram tidas como consequências naturais

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.