Natureza dá novos indícios de que está se revoltando

Faltando dez dias para a reunião de Cúpula daTerra em Johannesburgo (dez anos depois da reunião no Rio de Janeiro), o planeta está fazendo tudo o que pode para enlouquecer os seres humanos: calores insuportáveis, secas trágicas no Vietnã, inundações mortais no Extremo Oriente ou na Europa Central e centenas de cadáveres. Muitos morrem por falta de água, muitos outros por excesso de água.Tudo acontece como se as nuvens, as florestas, as monções, El Niño, as correntes marítimas e os rios se mostrassem voluntariamente em seu pior dia, com seus recursos mais repugnantes, a fim de avisar os humanos que é urgente adotar medidas em nível mundial e que, se não se fizer isso, ostranstornos climáticos atingirão níveis tão grandes que a humanidade estará em perigo. O chato é que, em face desses transtornos, ninguém compreende nada.Não existe consenso nem mesmo quanto ao diagnóstico: segundo alguns, nós entramos num período de aquecimento global de longa duração. Mas, segundo outros, as desordens registradas há uma década são muito recentes para constituir uma prova.E estes balbúcios são ainda maiores se tentarmos compreender as causas: como regra geral, a culpa é atribuída (e parece justo) aos efeitos da industrialização, da destruição das florestas, do consumo exagerado, etc. Isso permite apontar odedo para o culpado "número 1" - os Estados Unidos - que, entretanto, se recusaram a aceitar as orientações do Protocolo de Kyoto.Mas está ficando cada vez mais claro que os Estados Unidos e a indústria - embora não mereçam ser absolvidos de culpa - não sãoos únicos réus. Existem outros culpados.Acabamos de descobrir um deles: no Sul da Ásia, entre o Paquistão, a China e a Índia, uma nuvem de poluição, de 3 quilômetros de espessura, está se movimentando de um lado para outro nas alturas. Esta nuvem é um horror: está formada deaerossóis, de óxido de carbono, de ozônio, de sujeira, de poeira. Tem dois efeitos principais: por uma parte, reduz em 10% a quantidade de energia solar que atinge o solo.Por outra, diminui em 20% as chuvas, chegando até mesmo a 40% em algumas regiões. E ainda não é tudo: como a luz solar fica mais fraca, a fotossíntese se realiza com dificuldade e issoreduz as safras agrícolas. Enfim, as imundíces que recheiam essa nuvem estragam a saúde dos habitantes.De fato, hoje podemos compreender o porquê de centenas de milhares de mortes prematuras e insólitas constatadas nas grandes cidades.Por enquanto, essa nuvem contaminada se mexe apenas sobre a Ásia, o que aliás já é uma coisa ruim, pois esta zona compreende dois bilhões de habitantes e poderia ter o dobro disso dentro de20 anos.Mas os cientistas temem que isso possa causar efeitos ainda mais vastos. Essa nuvem modifica o intercâmbio entre a atmosfera e o mar sobretudo no Oceano Índico e isso ameaça desregular todaa circulação atmosférica e poderia agravar alguns fenômenos perigosos, como El Niño, os regimes dos grande ventos, as correntes oceânicas, as monções, etc.Esta nuvem tem outros motivos para nos inquietar. Até agora, nós acusamos em primeiro lugar as grandes nações industriais pelos danos à atmosfera - a Europa Ocidental e sobretudo osEstados Unidos.Contudo, a nuvem da Ásia não está sobrevoando regiões da grande indústria poluidora. Por outro lado, são regiões extremamente povoadas, com densidades populacionais enormes (Índia, China) que estão se desenvolvendo rapidamente.Duas consequências deste seu desenvolvimento industrial: por um lado, as zonas rurais estão ficando despovoadas e enormes cidades estão atraindo milhões de pobres. Por outro lado, comonão é possível fornecer a todos os habitantes a eletricidade e o gás, recorre-se a meios tradicionais de aquecimento. Ora, freqüentemente, esses meios tradicionais são ainda mais poluidores do que os meios modernos. A queima de madeira para o cozimento de alimentos e para a calefação por parte de bilhõesde pessoas, por exemplo, tem efeitos às vezes mais graves do que os meios modernos de calefação. As emissões de diióxido de enxofre aumentam ainda mais rapidamente do que a própria população.E assim a descoberta desta nuvem culpável mostra que não basta acusar apenas as nações superindustrializadas. Os outros países- principalmente os de população mais densa, contribuem também para o efeito-estufa e para o eventual aquecimento do planeta.Podemos já adivinhar os argumentos que os Estados Unidos poderão deduzir desta nuvem perversa para se recusarem , amanhãcomo hoje, a impor o menor sacrifício aos seus industriais. Apesar disso, essa posição seria absurda: em primeiro lugar, não é porque um outro "assassino" foi encontrado e preso que sedeverá "proclamar inocente" o primeiro assassino.Em segundo lugar, a descoberta deste novo perigo exige que o todo o planeta , os ricos e os pobres - tanto o Terceiro Mundo quanto os Estados Unidos - unam suas forças para afastar esse terrível espantalho.Veja a galeria de fotos sobre as chuvas na Europa e na Ásia

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