David Frayer, University of Kansas
David Frayer, University of Kansas

Neanderthais já praticavam 'odontologia pré-histórica' há 130 mil anos, diz estudo

Cientistas estudaram quatro dentes encontrados há mais de 100 anos na Croácia e descobriram sulcos, ranhuras e fraturas feitas deliberadamente para tentar tratar dentes impactados e desalinhados

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2017 | 17h14

Há 130 mil anos, o homem de Neanderthal já praticava uma espécie de "odontologia pré-histórica", de acordo com um novo estudo que analisou um conjunto de dentes encontrados há mais de 100 anos, na Croácia. 

A análise dos dentes de um Neanderthal mostrou uma série de sulcos, ranhuras e fraturas que revelam tentativas de lidar com problemas odontológicos como um dente impactado  e um outro desalinhado, de acordo com os autores do estudo, liderado por cientistas da Unviersidade do Kansas (Estados Unidos). 

Segundo os autores, assim como outros estudos recentes, a nova pesquisa indica que os Neanderthais eram muito mais inteligentes do que se pensava. 

"Havia sulcos feitos com algum tipo de palito, fraturas e ranhuras nos pré-molares. De maneira geral, tudo isso indica que esse Nenaderthal tinha algum problema dentário que estava tentando tratar sozinho, como um humano moderno poderia fazer", afirmou um dos autores da pesquisa, o antropólogo David Frayer.

A pesquisa teve seus resultados publicados hoje no Boletim da Associação Internacional de Paleodontologia. Os cientistas analisaram quatro dentes isolados, mas que provavelmente pertenciam ao lado esquerdo da boca de um só indivíduo.

Em Krapina, na Croácia, onde os dentes foram encontrados entre 1899 e 1905, os autores do novo estudo já haviam feito uma série de descobertas sobre a vida Neanderthal. Uma delas foi um estudo publicado em 2015 sobre um conjunto de garras de águia com marcas de cortes e moldadas como adornos.

Na nova pesquisa, os cientistas analisaram os dentes com microsópios para documentar o desgaste oclusal - isto é, como os dentes se encaixavam na mordida -, a formação de sulcos feitos com palitos, ranhuras na dentina e fraturas no esmalte antes da morte.

Segundo os cientistas, não foi possível localizar a mandíbula do indivíduo para buscar indícios de infecções nas gengivas, mas os sulcos e ranhuras nos dentes indicam que provavelmente algo estava causando irritação e desconforto por algum tempo nesse indivíduo.

Os cientistas também verificaram que o terceiro molar e um pré-molar haviam sido empurrados para fora de suas posições normais. Foram encontradas seis sulcos nesses dentes e nos dois molares vizinhos.

Segundo Frayer, as características do pré-molar e do terceiro molar estão associadas com vários tipos de manipulação dentária. "As ranhuras indicam que esse individuo estava enfiando algo em sua boca para alcançar o pré-molar fora de posição", disse Frayer.

Os cientistas não conseguiram identificar o que o Neanderthal usou para produzir os sulcos nos dentes, mas é possível que tenha sido um pedaço de osso, ou um caule duro de gramínea.

"Talvez não seja surpreendente que um Neanderthal tenha feito isso, mas até onde sei não havia sido encontrado nenhum outro espécime que combinasse todas essas intervenções em um padrão que indique tão claramente a tentativa de tratar um problema de erupção", disse Frayer.

Inteligência analgésicos. e O novo estudo, segundo Frayer, é interessante quando associado à descoberta de que os Neanderthais faziam adornos com garras de água, porque até agora era comum se pensar que os Neanderthais não teriam inteligência comparável à humana. 

Em um estudo publicado em março, outro grupo de cientistas também revelou evidências de que os Neanderthais utilizavam formas naturais de penicilina e de aspirina para tratar a infecções associadas a problemas dentários.

"Tudo isso sugere que o Neanderthal era capaz de modificar seu ambiente com o uso de ferramentas. Palitar os dentes e neles produzir ranhuras e fraturas são ações que mostram que os Neanderthais faziam intervenções dentro da boca para tratar irritações dentais. Ou pelo menos esse Neanderthal fazia", disse Frayer.

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