Negociadores tentam conciliar o inconciliável

A iniciativa brasileira em favor de uma meta global para o uso de fontes renováveis de energia vivia seus momentos decisivos neste sábado, enquanto os negociadores tentavam conciliar o inconciliável: os interesses dos parceiros do Brasil no G-77, do qual fazem parte os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), assim como os dos europeus, dos americanos e dos países pobres. No âmbito do G-77, a perspectiva era de aprovação de um texto propondo a adoção de metas regionais voluntárias para o uso de fontes renováveis, incluindo as grandes hidrelétricas. A linguagem ficará aquém da proposta original brasileira, de meta de 10% até 2010 para todos os países do mundo, excluindo as grandes hidrelétricas, que causam danos ao meio ambiente. É um avanço, no entanto, em relação à reunião preparatória de Bali (entre maio e junho), quando os países produtores de petróleo rejeitaram por princípio a noção de metas do uso de fontes renováveis, que concorrem com o petróleo. Além da Venezuela e do México, que apóiam a proposta brasileira, adotada como iniciativa regional da América Latina e do Caribe, outro grande produtor de petróleo aderiu: a Noruega. O foco da resistência continuava sendo a Arábia Saudita, cujos negociadores anunciaram que estavam em consultas com o governo em Riad. O diretor-geral de Energia e Meio Ambiente do México, José Garibaldi, foi até os sauditas para tentar convencê-los, mas desistiu. Há uma suspeita entre alguns observadores de que a implacável resistência saudita tenha, por trás dos bastidores, o respaldo dos Estados Unidos, que se têm mantido discretos nas discussões. Além de os Estados Unidos abrigarem grande fatia de petróleo em sua matriz energética, o governo de George W. Bush mantém vínculos umbilicais com a indústria petrolífera. "Apoiamos o Brasil para que a iniciativa siga adiante", disse Garibaldi ao Estado. "Esse é um grande trabalho que o Brasil está fazendo, junto com o México e com toda a América Latina." A expectativa do Brasil e seus aliados, a partir da aprovação das metas regionais no G-77, é avançar nas negociações para tornar a iniciativa latino-americana e a da União Européia uma só. Os europeus propõem meta de 15% até 2010, mas com os países industrializados, cuja fatia de fontes renováveis de energia é de 5,6%, aumentando-a em apenas 2%. Os negociadores brasileiros tentam convencer a UE a aumentar de 2% para 4%, de modo que, somando à sua média de 5,6%, se alcance a meta de 10% proposta pelo Brasil. "Não será uma meta global, mas será transatlântica", disse uma fonte. "A partir daí, num processo de construção de blocos, com acordos mútuos, podemos caminhar para a meta global."Veja o Especial Rio+10

Agencia Estado,

31 de agosto de 2002 | 12h36

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