Nem tudo o que cai nas redes de arrasto no litoral brasileiro é aproveitado

Uma portaria do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), publicada no último dia 25 de junho, proíbe a pesca de arrasto no litoral dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. A proibição tem limites diferentes em cada localidade, dependendo das características de cada trecho de costa e, em especial, do tipo de fundo sobre o qual os barcos arrastam as redes. A faixa de restrição, nestes quatro estados, varia de uma a três milhas. O mesmo tipo de proibição já existia para o Maranhão, Pará e Amapá e para as regiões Sudeste e Sul, com faixas variando entre 1 e 10 milhas, a partir do litoral.A pesca de arrasto é feita com um ou dois barcos, que puxam uma rede encostada no fundo do mar, ?muito eficiente para arrastar tudo o que aparecer pela frente e extremamente predatória do ponto de vista do ambiente e da conservação dos estoques pesqueiros?, define José Dias Neto, chefe da Coordenadoria Geral de Gestão de Recursos Pesqueiros do Ibama. Além de causar impacto sobre o fundo, revirando o substrato mais superficial numa grande nuvem de ?poeira?, deslocando algas, esponjas, estrelas do mar e outros seres que ali vivem, estas redes capturam muitos peixes, moluscos e crustáceos indesejáveis, tecnicamente chamadas de ?fauna acompanhante?. Entre estas costumam estar larvas e juvenis dos próprios camarões e peixes comerciais, que são pequenos demais para o comércio e por isso serão simplesmente descartados.Quase todos os seres marinhos capturados em redes de arrasto por acaso morrem, mesmo se devolvidos ao mar. O arrasto dura, em média, de 2 a 4 horas e, em alguns casos, pode chegar a 6 horas. Os primeiros a serem capturados são comprimidos no fundo da rede e morrem esmagados. Os mais resistentes ainda chegam à superfície vivos, mas costumam permanecer sobre o convés dos barcos ? e fora d?água - até que todo o camarão ou peixe comercial seja guardado, morrendo neste meio tempo.A média na pesca de arrasto de camarão, no norte do país, é de 7,2 kg de fauna acompanhante por quilo de camarão aproveitado. ?Cerca de 4 kg desta fauna acompanhante é de peixes com tamanho suficiente para a comercialização, que, no entanto, ainda é descartado?, conta Dias Neto. Na região Sul, a relação era menor, de cerca de 4 kg de fauna acompanhante para cada quilo de camarão rosa ?Mas hoje a sobrepesca já reduziu tanto os estoques de camarão do Sul, que a fauna acompanhante vem sendo aproveitada, reduzindo o desperdício?. Dias Neto ressalta que a captura de fauna acompanhante tende a ser maior em águas tropicais, onde a biodiversidade é maior e a população de cada espécie menor, exatamente como nas florestas. ?Em águas frias, os cardumes são mais ?limpos? e a captura acidental é menor?, diz.Sinais de declínioExistem hoje, operando no Brasil, entre 500 e 800 barcos de pesca de arrasto. Eles saem exclusivamente em busca de camarão, no Norte e Nordeste, e atrás de camarão e dos peixes castanha, pescada olhuda, pescadinha real e corvina, no Sul e Sudeste, onde eventualmente se capturam também linguados. Todos os estoques destas espécies demonstram sinais de declínio, devido à sobrepesca.A pesca dos peixes de arrasto caiu para 70 a 80% do que costumava ser. Se o total pescado, por ano, chegava a ser de 50 mil toneladas, hoje é de 35 mil. A situação do camarão é pior. Nos estados do Sul, o total anual já foi de 15 mil toneladas e atualmente fica entre 5 a 9 mil. A variação é grande em razão da flutuabilidade dos estoques pescados na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, que depende de condições climáticas e ambientais apropriadas para a entrada do camarão vindo do mar. ?De qualquer modo, os barcos de arrasto, que pescam além da faixa proibida e que traziam de 4 a 5 mil toneladas por ano, hoje trazem só mil?, continua José Dias Neto. Mesmo no Norte, onde os sinais de sobrepesca são mais recentes, o total de 9 mil toneladas de camarão por ano já baixou para 5 a 6 mil toneladas.

Agencia Estado,

21 de julho de 2003 | 11h06

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