Nobel da Paz argentino diz que papa não foi cúmplice da ditadura

O prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel defendeu o papa Francisco nesta quinta-feira contra acusações de que ele não criticou a repressão durante a ditadura militar de 1976 a 1983 em sua Argentina natal, dizendo que ele preferiu a "diplomacia discreta".

Reuters

21 Março 2013 | 15h49

As ligações entre alguns clérigos católicos do alto escalão e o regime militar apoiado pelos Estados Unidos que sequestrou e matou até 30.000 esquerdistas entre 1976 e 1983 macularam a reputação da Igreja na Argentina e a ferida ainda precisa cicatrizar.

Críticos do papa Francisco dizem que, na época, ele não protegeu padres que desafiaram a junta e disse muito pouco sobre a cumplicidade da Igreja durante o governo militar.

"O papa nada tem a ver com a ditadura. Ele não foi um cúmplice da ditadura", disse Esquivel a repórteres depois de uma reunião de 30 minutos com Francisco no Vaticano.

"Ele preferiu uma diplomacia discreta, perguntar sobre os desaparecidos, sobre os oprimidos. Não há provas de que ele foi um cúmplice porque ele nunca foi um cúmplice. Disso eu tenho certeza", disse.

O papa, o argentino Jorge Bergoglio, não era um bispo durante a ditadura, mas era padre. Ele liderou a ordem jesuíta na Argentina de 1973 a 1979 e foi nomeado bispo em 1992.

Segundo Horacio Verbitsky, um jornalista e escritor próximo da presidente argentina, Cristina Fernández, com quem Bergoglio tem uma relação espinhosa, ele retirou a proteção da ordem sobre dois padres jesuítas depois que eles se recusaram a deixar de visitar as favelas, abrindo caminho para a captura deles.

O Vaticano negou as acusações e nesta quinta-feira Esquivel, que ganhou o Nobel da Paz em 1980 por defender os direitos humanos na Argentina durante a ditadura, disse acreditar haver "muitos erros" no livro de Verbitsky sobre o período, chamado "O Silêncio".

Esquivel, reunindo-se com repórteres em um apartamento perto do Vaticano, disse que achou o novo papa "seguro de si e determinado a cumprir sua missão", principalmente seu desejo de ajudar os pobres.

PEOCUPADO COM OS POBRES

"O que mais o preocupa é a situação dos pobres", disse o Nobel.

Francisco, o primeiro papa não europeu em 1.300 anos, pegou seu nome de São Francisco de Assis, um símbolo da pobreza, simplicidade, caridade e amor à natureza que viveu no século 13.

"Os primeiros poucos sinais que Francisco deu são muito positivos e eu espero que ele continue neste mesmo caminho", disse Esquivel.

Desde sua eleição na semana passada, Francisco estabeleceu o tom de um papado mais humilde e pediu à Igreja que defenda os fracos e proteja o meio ambiente.

Nesse sentido, o Vaticano disse nesta quinta-feira que Francisco fará uma cerimônia na próxima semana na capela de uma prisão juvenil em vez de no Vaticano ou em uma basílica de Roma onde foi feita antes.

Ele conduzirá a missa noturna da Quinta-feira Santa na prisão Casal del Marmo para menores nos arredores de Roma.

Durante a missa, o papa lava e beija os pés de 12 pessoas para comemorar o gesto de humildade de Jesus com seus apóstolos na véspera de ser crucificado.

Todos os papas anteriores fizeram a cerimônia na Basílica de São Pedro, no Vaticano, ou na Basílica de São João Latrão, que é a catedral do papa como bispo de Roma.

Quando era arcebispo de Buenos Aires, ele sempre celebrava a Quinta-feira Santa em uma prisão, hospital ou abrigo de idosos ou com os pobres.

(Por Philip Pullella, com reportagem adicional de Alejandro Lifschtz e Helen Popper, em Buenos Aires)

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