Nobel para descoberta do vírus da Aids ignora americano

Robert Gallo, americano que reivindicou a descoberta do HIV, não foi contemplado com franceses

da Redação ,

06 de outubro de 2008 | 08h05

Três cientistas europeus dividem o Prêmio Nobel de Medicina de 2008, sendo dois franceses, Françoise Barre-Sinoussi e Luc Montagnier, pela descoberta do vírus causador da Aids, o HIV, e o alemão Harald zur Hausen, pela descoberta de que o papilomavírus humano (HPV) causa câncer de colo do útero.   Os ganhadores do ano passado Estudo rastreia vírus da Aids ao início do século 20 Vacina para câncer de colo de útero tem 90% de eficácia   A autoria da descoberta do HIV e da criação do primeiro exame capaz de detectar o vírus gerou uma disputa científica e comercial entre França e EUA ainda nos anos 80, com um cientista americano que freqüentemente também é citado como descobridor do vírus - Robert Gallo - chegando a ser acusado de fraude.   Em 1987, os então presidentes da França, Jacques Chirac, e dos EUA, Ronald Reagan, anunciaram que os dois países concordavam em dividir o crédito. Nos anos 90, os Estados Unidos reconheceram que os franceses mereciam uma parcela maior dos royalties dos produtos derivados da descoberta, solidificando a posição de Montagnier como principal descobridor.   Gallo não foi contemplado com o Nobel, embora seja citado na documentação divulgada pelo Comitê Nobel com a justificativa do prêmio.   Vacina para o HPV   O pesquisador alemão receberá metade do prêmio de 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,4 milhão, ou cerca de R$ 3 milhões), e os dois franceses, a outra metade.    "Não estava preparado para isso", disse Zur Hausen, de 72 anos, que trabalha no Centro de Pesquisas do Câncer Humano em Heildelberg, Alemanha. "Estamos tomando uma taça de espumante agora".   Uma vacina, a Gardasil, foi aprovada nos EUA em 2006 - e no Brasil, em 2008 - para evitar o câcer de colo de útero em meninas e mulheres de 9 a 26 anos. A vacina funciona protegendo contra cepas do papilomavírus humano, incluindo as duas variedades descobertas por zur Hausen.   Vírus da Aids   Em sua citação, ao Comitê Nobel disse que a descoberta de Barre-Sinoussi e Montagnier foi um pré- requisito para a compreensão da biologia da Aids e da criação dos tratamentos anti-retrovirais. O comitê disse ainda que zur Hausen enfrentou o "dogma aceito" quando determinou que certos tipos de papilomavírus humano, ou HPVs, causam câncer. Ele descobriu que O DNA do vírus podia ser encontrado em alguns tumores   A francesa  Françoice  Barre-Sinoussi dirige a União de Regulação de Infecções Retrovirais do Instituto Pasteur e Montagnier é o diretor da Fundação Mundial para Pesquisa e Prevenção da Aids.   Ouvida por telefone do Camboja, onde se encontra,  Françoise disse que trabalhar com essa doença é "fascinante e frustrante". Ela disse que, quando o vírus foi isolado há 25 anos, os cientistas acreditaram que seriam capazes de evitar a epidemia global que se seguiu.   "Fomos muito ingênuos", declarou. "Ingenuamente, acreditamos que a descoberta do vírus permitiria que aprendêssemos rapidamente a respeito dele, criar exames de diagnóstico - o que foi feito - e desenvolver tratamentos, o que também foi feito e, mais que tudo, criar uma vacina para impedir a epidemia global", disse ela.     "Nessa questão, devo dizer que até agora tem havido uma sucessão de fracassos, ligada à complexidade da interação entre o vírus e os seres humanos".   Desapontado   Gallo, atualmente diretor do Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland,  declarou-se "desapontado" por não ter recebido o prêmio juntamente com a dupla francesa, mas acrescentou que todos os três ganhadores deste ano fizeram por merecer o Nobel. Não mais que três pessoas podem dividir o prêmio a cada ano.   Maria Masucci, que é membro do Comitê Nobel, disse que não existe dúvida na comunidade científica de que foram os franceses quem descobriram e caracterizaram o vírus. "O foco da disputa está em eventos posteriores na história do vírus, particularmente na criação de ferramentas de diagnóstico, que com certeza são extremamente importantes mas que, basicamente, dependem da descoberta do vírus em si", disse ela.   A Medicina é tradicionalmente a primeira área a ser agraciada com o Prêmio Nobel todos os anos. Os próximos prêmios a serem anunciados serão o de Física, Química, Literatura, Paz e Economia.   A primeira edição do Nobel, que dá prêmios nas áreas de ciência, literatura e paz, aconteceu em 1901 atendendo à vontade do inventor da dinamite e empresário Alfred Nobel.   (com AP e Reuters)

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