Nós somos aquela ovelha
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Fernando Reinach
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Nós somos aquela ovelha

Animal totalmente coberto de pelo não é um produto da seleção natural - é um ser vivo selecionado pelo homem; é possível argumentar que o 'Homo sapiens' vem sofrendo um processo semelhante

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 20h00

Semana passada encontraram um ovelha muito estranha na Austrália. Ela parecia uma enorme bola de lã. Somente as pontas das patas eram vistas saindo da bola e tocando o chão. Os veterinários ficaram espantados. Havia tanta lã cobrindo sua cabeça que os olhos estavam tampados. Ela quase não enxergava. A lã impedia que as fezes e a urina chegassem ao chão. Eram filtradas e escoavam por um emaranhado de lã. Os dejetos se acumulavam, encharcando os pelos onde crescia uma comunidade de micróbios e insetos no emaranhado dos fios. Quando foi tosada, produziu 40 quilos de lã.

Os criadores acreditam que a ovelha tenha fugido, se perdido, e tenha passado dois ou três anos vagando pela região. Sem ser tosada, ela acabou nesse estado miserável. Mas se carneiros selvagens vivem livres pelas montanhas, porque uma ovelha perdida não é capaz de ser feliz?

A diferença é que essa ovelha não é um produto da seleção natural. É um ser vivo selecionado pelo homem. Faz milhares de anos que seus ancestrais foram retirados do ambiente natural. Durante séculos, nós, humanos, substituímos a pressão exercida pelo meio ambiente pela pressão exercida por nossa preferência e vontade. A cada geração selecionamos animais que produzem mais lã. A cada geração usamos somente esses animais como reprodutores. Esse processo, repetido por centenas de gerações, produziu esse animal aberrante, incapaz de trocar o próprio pelo ao longo das estações do ano. O resultado é uma ovelha que, se não for tosada regularmente, fica imunda, cega, incapaz de viver livre na natureza. Mas um animal ótimo para nós: um grande produtor de lã. 

E isso não ocorre somente com ovelhas. Nossas vacas leiteiras produzem tanto leite que morrem se não forem ordenhadas. Nossos frangos crescem tão rápido que nunca conseguiriam sobreviver fora das granjas. Nosso milho, se for abandonado no meio das outras plantas, é incapaz de sobreviver. São todas espécies que deixaram de se submeter à seleção natural, o processo descrito por Darwin em que a capacidade de sobreviver e reproduzir no ambiente natural é o que conta, e foram selecionados pelo homem para produzir o que nos interessa: lã, carne, ovos e sementes. Elas se tornaram úteis para nós, mas inviáveis nos ecossistemas onde surgiram.

É possível argumentar que o Homo sapiens vem sofrendo um processo semelhante. No nosso caso não fomos distanciados de nosso meio ambiente original por um outro animal mais poderoso, como ocorreu com as ovelhas.

Fomos separados das forças de seleção natural por uma parte de nosso corpo, o cérebro. O que vem nos isolando da natureza é a tecnologia gerada por nossa inteligência e criatividade. Domesticamos plantas para não precisar coletar comida, inventamos lanças para não precisar agarrar a presa à unha, domesticamos ovelhas para produzir casacos e nos isolar do frio. Cada nova tecnologia nos isola um pouco mais das forças da seleção natural, a força que nos tornou viáveis ao longo de milhões de anos. Remédios nos separam da força seletiva dos parasitas e outras doenças. Cirurgias corrigem erros que seriam motivo de morte precoce na floresta. E assim vai. Até da noite somos distanciados pela eletricidade e do sol por óculos escuros e filtros solares.

O que aconteceria com um ser humano médio se fosse largado no interior da Austrália como nossa ovelha? E o que aconteceria com a humanidade se as tecnologias desaparecessem? Imagine sua vida sem agricultura, animais domesticados, fogo, eletricidade, medicina, dinheiro e internet. Provavelmente, grande parte da população morreria em dois ou três meses. 

Da mesma maneira que tornamos impossível a vida da ovelha em seu ambiente de origem, tornamos impossível nossa sobrevivência em nosso ambiente natural. Fomos isolados da natureza e domesticados por nossa tecnologia. A ovelha depende da tesoura e da tosa, nós dependemos do ambiente artificial que criamos. Não que exista muito a fazer para remediar o beco em que nos metemos como espécie. Mas não tenho dúvida que, de certa maneira, nós somos aquela ovelha.

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