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Nossa honestidade

O ser humano não se comporta como predizem economistas e a experiência comum indica

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2019 | 03h00

Ao redor do mundo US$ 1,3 trilhão é roubado a cada ano. Isso equivale a todo o Produto Interno Bruto (PIB) da Austrália. O que você imagina que aconteceria com sua carteira se ela fosse perdida? Se a carteira tiver dinheiro, aí provavelmente ela desaparecerá. A resposta reflete nossa percepção que o roubo corre solto. O método científico experimental permite checar a veracidade dessa nossa crença. Isso agora foi feito por um grupo de cientistas.

Economistas acreditam que o indivíduo coloca seu interesse individual acima do interesse de outras pessoas. Assim, nossas decisões dependem de um balanço entre a possibilidade de sermos descobertos roubando e a possível recompensa associada ao roubo. Quanto menor a chance de ser pego, e quanto maior o ganho potencial, maior a chance de roubarmos. A isso os psicólogos contrapõem o seguinte argumento: roubar implica alterar nossa autoimagem.

Se antes nos imaginávamos honestos, quando nos apropriamos de dinheiro de outrem passamos a nos ver como pessoas desonestas, e isso tem um custo emocional. Já os biólogos sabem que animais sociais como nós tendem a ajudar uns aos outros esperando retribuição, o que é essencial para a preservação do grupo (eu não te roubo porque espero não ser roubado por você). Tudo indica que muitos fatores devem influenciar nossa decisão de roubar. Mas o que acontece na vida real?

Para testar essas ideias em condições próximas da realidade, um grupo de cientistas bolou um experimento simples e genial. Eles visitaram 355 cidades, em 40 países, com 17.303 carteiras. Todas as carteiras continham cartões de visita identificando o dono, uma chave e uma lista de compras. Metade das carteiras tinha o equivalente a US$ 13 na moeda do país, enquanto a outra metade não continha dinheiro. 

Em cada cidade o cientista entrava em um local público (hospitais, hotéis, bancos ou museus) e entregava uma carteira para o porteiro, dizendo que a encontrou na rua ali em frente, e estava com pressa. Em seguida, deixava o local, sem trocar nenhuma palavra.

Em cada uma das 355 cidades foram entregues 25 carteiras com dinheiro e 25 sem dinheiro. Como cada cartão de visita tinha um e-mail específico, os cientistas voltaram para casa e ficaram esperando serem contatados.

Após cem dias, foi possível determinar em quantos casos as carteiras haviam sido devolvidas. Além disso foi possível determinar se carteiras com dinheiro eram devolvidas com maior ou menor frequência. A porcentagem de carteiras devolvidas variou muito de um país para outro. 

Na China só 8% das carteiras sem dinheiro foram devolvidas, já na Suíça, 72% das carteiras sem dinheiro foram devolvidas. No Brasil 33% das carteiras foram devolvidas. Grosso modo a porcentagem de carteiras devolvidas segue o nível educacional do país. O mais interessante e inesperado é que em 38 dos 40 países, a porcentagem de carteiras com dinheiro devolvidas foi maior do que a de carteiras sem dinheiro. 

Isso mesmo, exceto Peru e México, em todos os países a porcentagem de carteiras com dinheiro devolvidas é aproximadamente 10 pontos porcentuais maior que as sem dinheiro. No Brasil, onde 33% das carteiras sem dinheiro foram devolvidas, 50% das carteiras com dinheiro foram devolvidas. Ou seja, o fato de a carteira ter mais valor para seu dono aumenta a chance de ela ser devolvida. O resultado contraria o senso comum e foi confirmado repetindo parte do experimento com carteiras com valores crescentes de dinheiro. Quanto mais dinheiro mais chances de ser devolvida.

Esses resultados demonstram que o ser humano não se comporta como predizem os economistas e tampouco se comporta como nossa experiência comum indica. Leigos previram uma menor frequência de devolução quanto maior a quantidade de dinheiro. Finalmente esse experimento demonstra quão poderosa é a ciência experimental e quão pouco sabemos sobre nosso comportamento. Esse é mais um exemplo de como experimentos muitas vezes contradizem nossa intuição e nossas crenças. Agora, se você perder uma carteira, torça para ter dinheiro dentro: isso aumenta as chances de ela ser devolvida.

MAIS INFORMAÇÕES: CIVIC HONESTY AROUND THE GLOBE. SCIENCE, VOL. 365, PÁG.70 (2019)

*É BIÓLOGO

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