Nova espécie de coruja é descrita em Pernambuco

Pernambuco é um dos Estados brasileiros de ocupação mais antiga. A costa pernambucana está entre as primeiras áreas alteradas após o Descobrimento, para o plantio de cana-de-açúcar. O índice estadual de destruição da Mata Atlântica original supera os 96%, restando apenas fragmentos isolados, sem conectividade. Das 154 aves brasileiras ameaçadas de extinção, 17 são exclusivas (endêmicas) de Pernambuco. As aves são a classe de animais vertebrados mais conhecida, atualmente com a mais baixa taxa de descobertas em todo o mundo, em torno de três por ano. Encontrar uma espécie nova de ave, natural da Mata Atlântica pernambucana costeira, é, portanto, o equivalente científico de acertar na loteria.É o caso de José Maria Cardoso da Silva, vice presidente da Conservation International do Brasil (CI-Brasil), Galileu Coelho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Luiz Pedreira Gonzaga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que acabam de descrever uma nova espécie de coruja ? o caburé de Pernambuco ou Glaucidium mooreorum -, que habita as matas secundárias da Reserva Biológica de Saltinho, em Rio Formoso (548 hectares), e da reserva florestal da Usina Trapiche (6 mil hectares). ?A descoberta mostra o quanto ainda desconhecemos, até mesmo da Mata Atlântica, da qual já resta tão pouco?, comenta Cardoso da Silva, da CI. ?Mostra também que ainda vale a pena conservar, mesmo os pequenos fragmentos, tentando restaurar a conectividade entre eles?. Apesar de recém descrita, a nova espécie já é considerada criticamente ameaçada de extinção, pelos pesquisadores, justamente devido à perda de seu hábitat original. Reprodução/AEO caburé de Pernambuco vive em matas secundárias, cercadas de cana-de-açúcar e pastagens.O caburé de Pernambuco é marrom e pequeno - tem apenas 15 cm - e se parece com duas outras espécies do mesmo gênero, a G. hardyi, da Amazônia, e a G. minutissimum, da região Sudeste. Esta semelhança foi o que retardou sua identificação como espécie nova. O espécime usado para a descrição científica estava na coleção da UFPE desde 1980, quando foi coletado por Galileu Coelho, que achou tratar-se de um caburé comum. Em 1990, Coelho também gravou a voz. Mas foi só em 1997, quando Cardoso da Silva revisou a coleção, que surgiu a desconfiança de que era uma espécie diferente. As dúvidas exigiram a comparação com diversas coleções do Brasil e do exterior e análises de voz, feitas por Luiz Pedreira Gonzaga. E o artigo científico, descrevendo a espécie, só foi publicado ontem (12/6) na Revista Brasileira de Ornitologia Ararajuba.O nome científico da pequena coruja ? mooreorum - homenageia o casal de norte americanos Gordon e Betty Moore, da Fundação Moore, por sua contribuição à conservação da biodiversidade brasileira e mundial, com doações superiores a US$ 250 milhões para financiar projetos, nos próximos 8 anos. O casal recebeu um quadro com a ilustração da ave, extremamente difícil de fotografar na natureza. Na verdade, somente mais um exemplar do caburé foi localizado, em 2002, na reserva florestal da Usina Trapiche, por Pedreira Gonzaga, que utilizou a voz gravada em 1990 para atraí-lo.

Agencia Estado,

13 de junho de 2003 | 10h07

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