Rodrigo Ferreira
Rodrigo Ferreira

Nova espécie de perereca se reproduz apenas em bromélias

Encontrada na Mata Atlântica do Espírito Santo, a Dendropsophus bromeliaceus tem pouco mais de um centímetro e tem todo seu ciclo reprodutivo na água da chuva acumulada no interior das plantas

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2015 | 18h09

Um grupo de cientistas liderado por um brasileiro descobriu, na Mata Atlântica do Espírito Santo, uma nova espécie de perereca que se reproduz exclusivamente na água acumulada no interior de bromélias. O animal, de pouco mais de um centímetro, foi descrito em um artigo publicado nesta quarta-feira na revista científica PLoS One.

A nova perereca - batizada de Dendropsophus bromeliaceus - foi encontrada em 2012, no município de Santa Tereza, 78 quilômetros a noroeste de Vitória, durante as pesquisas de campo do doutorado de Rodrigo Barbosa Ferreira, realizado na Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos. Hoje, Ferreira faz um pós-doutorado na Universidade de Vila Velha, no Espírito Santo.

Segundo Ferreira, diversos gêneros de anfíbios têm a água das bromélias como habitat, mas até agora não se conhecia nenhuma espécie do gênero Dendropsophus com essa característica.

"Durante os trabalhos, nossa equipe descobriu que essa espécie era nova e não havia sido descrita. A princípio, achamos que ela se enquadraria em um novo gênero. Mas uma análise molecular demonstrou que a nova espécie está na base genética do gênero Dendropsophus", disse Ferreira ao Estado.

Entre as 97 espécies do gênero, a Dendropsophus bromeliaceus - apelidada de "teresense", em homenagem ao município - é a única que utiliza a bromélia durante seu ciclo reprodutivo, segundo o cientista. O animal macho tem em média 1,6 centimetro. As fêmeas são um pouco maiores, chegando a 2,2 centímetros.

"Esse gênero é muito estudado e ocorre desde o México até o norte da Argentina, distribuindo-se portanto em vários biomas. É muito surpreendente que uma única espécie utilize esse ambiente peculiar para a reprodução", afirmou o pesquisador.

Segundo Ferreira, os machos se instalam nas bromélias e produzem vocalizações para atrair as fêmeas. Elas, por sua vez, põem seus ovos na água acumulada pela chuva no interior da planta. É ali que os girinos se desenvolvem.

"Elas vivem em bromélias de todos os tamanhos, em áreas de afloramento rochoso e em áreas de florestas, expostas a diferentes graus de insolação. É provável que os machos sejam territorialistas, por conta do limitado volume de recursos necessários para a metamorfose - como alimento água e espaço - encontrados em um habitat tão específico", afirmou Ferreira.

Os detalhes sobre a ecologia da pequena perereca, porém, ainda serão estudados por Ferreira, em seu pós-doutorado e por outros cientistas envolvidos com sua linha de pesquisas. "Pretendemos agora entender mais sobre a ecologia da espécie: descobrir qual o grau de interação dessas populações com as bromélias, como elas selecionam as plantas e qual o grau de territorialidade dos machos", disse. 

Os pesquisadores tentar descobrir também se a nova perereca apresenta cuidado parental - termo utilizado para descrever o comportamento de espécies que cuidam de suas proles em algum estágio do desenvolvimento. "Temos essa hipótese porque entre os anfíbios que vivem em bromélias há um elevado grau de cuidado parental", disse. 

Ameaças. Segundo Ferreira, a Dendropsophus bromeliaceus poderia ser enquadrada na categoria de "espécies em perigo", de acordo com os critérios do Ministério do Meio Ambiente e de órgãos internacionais como a União Internacional para a Conservação da Nautreza (IUCN, na sigla em inglês). "No entanto, como sabemos pouco sobre a ecologia da espécie, fomos cautelosos e a enquadramos na categoria 'dados deficientes'", disse Ferreira.

Três fatores poderiam colocar a nova espécie entre as ameaçadas. Um deles é a abrangência restrita: o animal foi encontrado apenas no entorno da Reserva Biológica Augusto Ruski, em Santa Tereza e, depois de concluído o estudo, em um município vizinho.

O segundo fator é o fato da perereca utilizar um microhabitat muito específico para reprodução - as bromélias. "Isso significa que a coleta ilegal de bromélias na Mata Atlântica pode ser uma ameaça à espécie", explicou Ferreira.

O terceiro aspecto que sugere uma ameaça à nova espécie é que até agora ela só foi observada em propriedades particulares. A reserva Augusto Ruschi tem uma área de cerca de 3,5 mil hectares e a perereca foi encontrada nos afloramentos rochosos adjacentes, em áreas privadas que somam 1,5 mil hectares.

"Com o novo Código Florestal, caso o proprietário tenha interesse em desmatar essas áreas, é bem provável que ele consiga. Principalmente porque esses locais de afloramento rochoso não são interessantes do ponto de vista da conservação", afirmou.

Mais conteúdo sobre:
Perereca Ciência Pesquisa Biologia Ecologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.