Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Novas cepas do vírus desafiam controle do contágio e alcance de proteção das vacinas

Com vacinas ainda insuficientes, o mundo passa a ter de lidar com as novas variantes do vírus, que evolui e pipoca em diferentes lugares. Na prática, cada uma das vacinas vai ter de ser testada contra cada uma das novas cepas

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 05h00

A ilusão durou uma semana. Quem acreditou que a chegada das vacinas iria acabar com a pandemia já percebeu que isso não vai acontecer: o Butantan confirmou que vai interromper o envase, na Fiocruz ele vai começar em março, a China não tem pressa em repor os estoques.

De concreto temos as 10 milhões de doses já envasadas pelo Butantan, mais 2 milhões chegando da Índia, o suficiente para vacinar 6 milhões de pessoas em um país de 210 milhões de habitantes. Como a Coronavac tem uma eficácia de 50%, só 3 desses 6 milhões devem se livrar da covid-19.

A ilusão que a Coronavac protege pessoas mais velhas e evita casos graves também foi destruída pela Anvisa: os dados não são suficientes para justificar essas conclusões. É provável os contratos do Butantan e da Fiocruz com a China sejam cumpridos, mas infelizmente esses contratos são suficientes para vacinar menos da metade dos brasileiros.

A segunda metade das doses deverá ser produzida em duas fábricas de princípio ativo que estão sendo construídas no Butantan e na Fiocruz. O Butantan promete sua fábrica para outubro, mas as fotos das obras são desanimadoras. Com as vacinas de baixa eficácia e a incompetência federal, é difícil imaginar que vai haver vacinação suficiente para impactar a pandemia no Brasil em 2021. 

Mas as desgraças que assolam a população brasileira não comovem o coronavírus. Enquanto nossos planos caem por água abaixo, o SARS-CoV-2 está evoluindo e novas cepas estão pipocando ao redor do mundo. Vale a pena entender o que são essas novas cepas.

Cada nova cepa se caracteriza por um conjunto de mutações que geralmente aparecem na “spike protein”, a proteína que forma a espícula do vírus, a região que o vírus usa para se ligar e penetrar nas células humanas (são aqueles chifrezinhos no vírus).

Como toda proteína, a “spike” é composta de uma sequência de centenas de aminoácidos. É como se fosse um colar de pérolas com centenas de pérolas. Mas ao invés de ser composto por um único tipo de pérola, contém 20 diferentes tipos de pérolas no mesmo colar (os 20 aminoácidos).

A sequência dos tipos de pérolas é rigidamente determinada: em cada posição está sempre o mesmo tipo de aminoácido (pérola). Assim, contando de uma ponta do colar, na posição 484, o coronavírus original possui um aminoácido chamado E (acido glutâmico). Em diversas das cepas novas, nessa posição foi encontrado o aminoácido K (lisina). Vem daí os nomes das mutações: E484K (substituição de um glutâmico por uma lisina na posição 484).

Milhares de novas cepas contendo diversas mutações desse tipo têm sido identificadas desde o início da pandemia. A grande maioria, apesar de carregar muitas mutações, tem as mesmas características do vírus original. Se espalham com a mesma velocidade e provocam a mesma doença com a mesma seriedade. O problema é que agora estão surgindo cepas com comportamento diferente da cepa original.

A cepa mais bem caracterizada foi detectada na Inglaterra em outubro, se tornou dominante por lá e já esta presente na Europa (se chama SARS-CoV-2 B.1.1.7). Ela é caracterizada por um conjunto de mutações que aumentam sua capacidade de se espalhar, mas causa uma doença idêntica à causada pelo SARS-CoV-2. Ela provocou um aumento enorme do número de casos na Inglaterra.

Devido a maior facilidade de se espalhar, as medidas de distanciamento social capazes de controlar a propagação do vírus original precisam ser mais rigorosas para obter o mesmo controle com a nova cepa. Foi isso que levou a Inglaterra ao “lockdown” quando seu sistema de saúde estava à beira do colapso. Essa cepa já está no Brasil, mas não sabemos como ela está se propagando por aqui. 

Mas as cepas que estão provocando mais preocupação entre cientistas são as que apareceram na África do Sul e em Manaus. Essas cepas são diferentes entre si pois possuem um conjunto diferente de mutações, mas se assemelham pelo fato de apresentarem algumas mutações em comum como a E484K e a K417N.

O que os cientistas estão começando a suspeitar é que essas novas cepas, além de se espalhar mais facilmente, são capazes de evadir a proteção do sistema imune. Ou seja, talvez sejam capazes de infectar pessoas que já foram infectadas no passado ou já foram vacinadas. É por isso que a Inglaterra suspendeu os voos do Brasil para a Inglaterra.

Um estudo recém divulgado usando a cepa identificada na África do Sul demonstrou que a cepa SARS-CoV-2 501Y.V2 consegue, pelo menos em laboratório, escapar do sistema imune de pessoas já infectadas.

O experimento é muito simples. Os cientistas usaram uma técnica que mede a capacidade do SARS-CoV-2 de penetrar em células humanas em tubos de ensaio. Quando você coloca o vírus em contato com células, o vírus penetra rapidamente e se divide iniciando a infecção. Agora, quando você repete o ensaio, mas coloca junto os anticorpos gerados por pessoas já infectadas, o vírus não consegue entrar.

Essa capacidade de bloquear a entrada é que leva os cientistas a chamar esses anticorpos de anticorpos neutralizantes. Na presença deles o vírus é neutralizado. São esses anticorpos que são produzidos por nosso corpo após uma infecção pelo vírus ou após sermos vacinados.

A descoberta importante é que essa nova cepa consegue entrar nas células humanas mesmo na presença dos anticorpos gerados após uma infecção. Quando você coloca o vírus da nova cepa junto com a célula ele consegue penetrar mesmo quando os anticorpos de uma pessoa já infectada estão presentes. Ou seja, essas cepas escapam da proteção do sistema imune.

Esse trabalho sugere que essas cepas seriam capazes de infectar pessoas que já foram infectadas anteriormente ou já foram vacinadas. Mas é importante lembrar que esse é o primeiro estudo, que ele precisa ainda ser confirmado, e ainda não foi revisado por outros cientistas. Além disso é um estudo feito fora do corpo humano e não sabemos ainda como essas novas cepas vão se comportar na vida real. De qualquer modo essa é a primeira evidência que poderemos ter que enfrentar cepas capazes de se espalhar rapidamente e escapar da proteção conferida pela vacina ou por uma infecção pelo vírus original.

O que isso significa na prática é que cada uma das vacinas vai ter que ser testada contra cada uma das novas cepas para verificar se elas conferem proteção a cada nova cepa. A perda de proteção pode ser parcial (cai a eficácia da vacina) ou pode ser total, quando a vacina simplesmente não protege os vacinados da nova cepa.

Os fabricantes de vacina estão agora montando sistemas para verificar se cada vacina é capaz de proteger contra cada nova cepa. Nesse quesito as vacinas de alta eficácia levam vantagem. Se uma vacina de 95% de eficácia contra o vírus original tiver uma eficácia de 85% contra as novas cepas ela pode continuar a ser usada, mas se uma vacina de 50% como a Coronavac tiver sua eficácia reduzida para 40% ela provavelmente deixará de ser útil. Tal como os softwares, tudo indica que no médio prazo teremos que dispor de novas versões de cada tipo de vacina, o que complica ainda mais o combate ao vírus.

Isso mostra que enquanto no Brasil os seres humanos se atrapalham com brigas políticas e tropeçam na incompetência e ignorância generalizada do governo, o vírus continua ganhando terreno. 

Mais informações: SARS-CoV-2 501Y.V2 escapes neutralization by South African COVID-19 donor plasma. https://doi.org/10.1101/2021.01.18.427166

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS. 

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