WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Novas técnicas prometem ampliar ‘cardápio’ de alimentos transgênicos

Com entrada em campo de métodos de edição genética, as regras do jogo sobre os transgênicos começam a mudar nos laboratórios

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

Soja, milho e algodão. A receita transgênica é basicamente a mesma há duas décadas; com algumas variações regionais – uma alfafa aqui, uma canola acolá –, mas nada muito além disso, fora do mundo das commodities. Novas tecnologias, porém, prometem ampliar o cardápio de plantas geneticamente modificadas disponíveis para o consumidor nos próximos anos.

Todos os transgênicos colocados no mercado até agora foram desenvolvidos pela técnica de DNA recombinante, na qual genes de uma espécie são transferidos para outra em laboratório, usando diversas ferramentas de engenharia genética. É uma tecnologia eficiente, mas trabalhosa, que exige a geração de milhares de plantas experimentais (chamadas eventos) para se chegar ao produto desejado.

Some a isso o peso de uma regulamentação rigorosa, e o resultado são anos de pesquisa e milhões de dólares em investimento, que só grandes empresas costumam ter fôlego para encarar. Por isso o mercado global de transgênicos é dominado por um pequeno grupo de multinacionais: Monsanto (recentemente comprada pela Bayer), Syngenta, Basf e DownDuPont.

Com a entrada em campo das novas técnicas de edição genética, as regras do jogo começam a mudar. Coletivamente chamadas de Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão (Timps), elas permitem fazer modificações pontuais no genoma de um organismo, com o objetivo de desligar, diminuir ou aumentar alguma característica genética dele. 

“Achamos que é uma ferramenta que vai redemocratizar a biotecnologia a nível mundial”, diz Celso Moretti, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A mais promissora das Timps é a técnica conhecida como crisper (ou sistema Crispr-Cas, na sigla técnica em inglês), aprimorada ao longo dos últimos cinco anos, que utiliza uma classe especial de enzimas para alterar, inserir ou apagar informações em pontos específicos do genoma – funcionando como um editor de textos molecular.

Tecnicamente, o crisper é consideravelmente mais simples, rápido e preciso do que as técnicas de DNA recombinante convencionais. E, como a modificação é feita no genoma da própria planta – sem a necessidade de transferir genes de uma espécie para outra –, a expectativa é de que as variedades criadas por essas novas metodologias não sejam classificadas como “transgênicas” e, portanto, não precisem passar por todos os testes e processos regulatórios que regem o desenvolvimento e a comercialização desses produtos.

“Isso coloca de volta no jogo uma série de atores que vinham atuando como coadjuvantes, mas poderão se tornar protagonistas”, afirma Moretti. Entre eles, a própria Embrapa. A empresa lançou em julho um edital de R$ 10 milhões, para estimular cientistas da casa a trabalhar com crisper e outras técnicas de edição genética. 

“Não vamos mais precisar de tanto tempo e tanto investimento para desenvolver novos produtos”, diz o pesquisador Elibio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, um pioneiro da transgenia no Brasil e entusiasta das Timps. “Certamente vai contribuir para aumentarmos a diversidade de organismos geneticamente modificados no mercado.”

“Nessa primeira fase dos transgênicos, os genes introduzidos nas plantas não trouxeram nenhum benefício direto para o consumidor”, diz o pesquisador Gonçalo Pereira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foram, basicamente, genes de resistência a insetos e tolerância a herbicidas — características que beneficiam o produtor rural, facilitando o manejo e proporcionando um melhor controle de pragas nas lavouras.

“A partir de agora, a expectativa é que você comece a modificar, de forma planejada, outras características das plantas que vão beneficiar diretamente o consumidor.” Por exemplo, características nutricionais ou que aumentem a durabilidade dos alimentos.

“Está na hora de buscarmos nossas próprias soluções”, afirma Pereira, ressaltando a importância de o Brasil não ficar para trás no uso dessas novas tecnologias. “Temos conhecimento e temos ciência para isso.”

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O cardápio de transgênicos hoje é pequeno, segundos os pesquisadores, nem tanto por uma dificuldade técnica, mas principalmente porque o custo para se fazer todos os testes e obter todas as licenças para colocar um produto no mercado é alto demais. 

Das 76 plantas transgênicas aprovadas pela CTNBio em 20 anos, só quatro foram desenvolvidas no Brasil: um feijão resistente a vírus (da Embrapa), uma soja tolerante a herbicidas (da Embrapa/Basf), uma cana-de-açúcar resistente a lagartas (do Centro de Tecnologia Canavieira - CTC) e um eucalipto geneticamente modificado para crescer mais rápido e produzir mais madeira (da Suzano/FuturaGene).

“As dificuldades que existem hoje para liberar um produto transgênico são muito grandes”, diz Luiz Antonio Barreto de Castro, pesquisador aposentado da Embrapa e ex-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Ele defende uma modernização da Lei Nacional de Biossegurança — que ele mesmo ajudou a criar, em 2005 —, no sentido de torná-la mais compatível com o conhecimento científico e as ferramentas tecnológicas atuais.

“Se o sistema fosse mais realista e valorizasse a ciência brasileira, não há a menor dúvida de que já teríamos feito muito mais”, diz o biólogo Paulo Arruda, da Unicamp, especialista em genômica e biotecnologia. 

Ele ressalta a importância de não repetir a história agora, com as técnicas de edição genética. “É um tecnologia infinitamente mais simples do que a transgenia”, diz. “Se não colocarmos barreiras regulatórias desnecessárias, é algo que vai explodir. Por outro lado, se usarmos o mesmo modelo atual, vai acontecer a mesma coisa: será um mercado dominado pelas grandes empresas.”

Regulamentação

Em julho, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que plantas com características geradas por edição genética são equivalentes a transgênicos e, portanto, devem ser regulamentadas como tal. Pesquisadores de diversos países, inclusive da própria Europa, disseram que a decisão carece de lógica científica. “Não faz sentido dizer que mudanças genéticas pontuais, que acontecem aos montes na natureza, são o mesmo que transgenia”, diz Arruda.

No Brasil, a CTNBio decidiu em janeiro que produtos gerados por Timps devem passar por uma consulta à comissão, que decidirá, em uma análise caso a caso, se eles se encaixam na definição legal de transgênicos do País. “Cada produto poderá ser considerado transgênico ou não, dependendo das suas características”, diz a bioquímica Maria Sueli Felipe, presidente da CTNBio e professora da Universidade Católica de Brasília.

A primeira decisão com base nessa resolução foi dada em junho. A CTNBio concluiu que duas leveduras da empresa GlobalYeast, geneticamente modificadas para melhorar a produção de bioetanol, não eram organismos transgênicos. “Acredito que vamos receber muitas consultas desse tipo daqui para a frente”, afirma Sueli.

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