Novas tecnologias podem reduzir uso do mercúrio

A substituição da atual tecnologia de produção de cloro-soda para eliminar a necessidade de usar o mercúrio - e acabar com os riscos potenciais de danos ambientais e à saúde humana a ele associados - é o objetivo de duas organizações não governamentais bem diferentes entre si: o Greenpeace e a Associação de Consciência à Prevenção Ocupacional (ACPO), de Santos. O mercúrio na indústria é tema de um seminário, realizado hoje e amanhã, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A contaminação de cursos d´água e solo com mercúrio, na Baixada Santista, não é assunto novo. Desde das primeiras análises feitas pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), nos anos 80, foram identificados diversos pontos com níveis de mercúrio considerados altos. Os vazamentos e descargas de resíduos contendo mercúrio diminuíram consideravelmente, nos últimos anos, mas, como a maioria dos metais pesados, o mercúrio persiste por longos períodos no meio ambiente, permanecendo principalmente no sedimento do fundo dos rios.Análises feitas pelo Greenpeace, em 1999, identificaram concentrações altas de mercúrio no sedimento do rio Cubatão, nas proximidades da Carbocloro, embora a origem seja indeterminada. A amostra acusou 15,6 ppm (partes por milhão), nível considerado acima do normal. "O mercúrio inorgânico, usado pelas indústrias, pode se transformar, através da ação de bactérias, em mercúrio orgânico ou metil mercúrio", explica Karen Suassuna, do Greenpeace. "Ambos tem efeitos nocivos para a saúde, mas o mercúrio orgânico acumula-se na cadeia alimentar, causando a intoxicação crônica".O mercúrio tende a se concentrar no organismo dos animais, porque não é metabolizado, oferecendo maiores riscos para os animais do topo de cadeia alimentar, entre os quais se incluem os predadores e o homem. A intoxicação por mercúrio, via de regra, ocorre devido à ingestão de peixes e moluscos contaminados. E as conseqüências para a saúde podem ser graves, dado que o poluente afeta o sistema nervoso central.A origem do mercúrio na Baixada Santista é considerada difusa, havendo indícios, inclusive, de transporte de outras regiões. No entanto, algumas indústrias instaladas em Cubatão trabalham diretamente com metal e, para elas, as ongs advogam a troca de tecnologia, dando preferência a processos que dispensam seu uso.Este é um dos objetivo da ACPO, que atualmente move uma ação civil pública contra a Carbocloro, instalada em Cubatão, que usa mercúrio como catalizador na produção de cloro-soda. A Carbocloro opera 60 células de mercúrio, que são caixas de aço fechadas, onde o mercúrio entra como catalizador das reações de produção de cloro e soda, recirculando em circuito fechado, conforme explica Ademar Salgosa Júnior, gerente de suporte industrial da empresa. Além das células de mercúrio, a Carbocloro usa outra tecnologia para produção de cloro-soda, de diafragma de amianto, também considerado um mineral poluente, sobretudo quando é quebrado e suas partículas ficam em suspensão.A tecnologia defendida pelos ambientalistas é a de células de membrana polimérica, uma espécie de separador de plástico, que tem a mesma função do diafragma de amianto e dispensa totalmente o uso de materiais potencialmente danosos ao meio ambiente. "Concordamos que a tendência, a longo prazo, é de adotar novas tecnologias, dada a pressão mundial contra o mercúrio e o amianto", admite Salgosa. "Se fossemos instalar uma fábrica hoje, sem dúvida a tecnologia a ser adotada seria a de membrana, mas é inviável trocar todas as células de mercúrio e de diafragma de amianto numa unidade com o volume de produção da Carbocloro, sendo que estamos atendendo a todos os padrões ambientais da legislação e investimos pesado no controle ambiental e da saúde do trabalhador".De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis e Cloro Derivados (Abiclor), a produção total de cloro-soda, no Brasil, é da ordem de 1,483 milhão de toneladas de cloro-soda, das quais apenas 56.200 toneladas com a tecnologia de membrana. Cerca de 70% da produção total (ou 1,049 milhão de toneladas) depende de diafragma de amianto e 25% ou 377 mil toneladas de células de mercúrio. O consumo médio brasileiro de mercúrio por tonelada de cloro-soda produzida é de 15g, sendo que a Carbocloro, segundo Salgosa, consome 5g/ton. "O grande problema está aí, na eficiência do controle ambiental sobre as emissões de mercúrio", pondera o engenheiro de produção Marcelo Firpo de Souza Porto, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, atualmente em pós doutoramento na Alemanha, na Universidade de Frankfurt. Ele explica que o consumo de mercúrio por tonelada de cloro-soda produzida dá a medida das emissões de mercúrio, que saem do circuito fechado das células na forma de gás ou como contaminante do produto (geralmente a solução de soda) ou nos resíduos sólidos (nas eventuais trocas de carvão ativado usado para recuperar o mercúrio no interior das células)."O Brasil não tem um controle ambiental efetivo deste mercúrio, nem parâmetros ou cronogramas para fazer este controle ou colocar numa mesa de negociações os órgãos ambientais, de saúde, de trabalho e as empresas, para traçar uma estratégia de banimento do uso do mercúrio, gradual e com regras claras estabelecidas", observa. Na Europa, após a Conferência do Mar do Norte, realizada no início dos anos 90, estabeleceu-se um limite de consumo de 2g/ton de mercúrio, na produção de cloro-soda, até o ano 2000 e as empresas que não alcançassem esta meta, seriam fechadas. O acordo também previa o banimento total do mercúrio neste setor até 2010. A meta foi superada e hoje a produção de cloro-soda européia, dependente de células de mercúrio (cerca de 4,968 milhões de toneladas ou 54% do total), tem como padrão o consumo de 1g/ton. "Por isso, o acordo da Conferência do Mar do Norte foi flexibilizado e agora se prevê o banimento total das células de mercúrio até 2020 ou 2025, quando a vida útil dos equipamentos vencer naturalmente e eles forem trocados pela tecnologia de membrana".

Agencia Estado,

20 de fevereiro de 2002 | 19h36

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.